O Cantinho do Santos – Convidada Carolina Rocha

Bem vindos ao meu cantinho! Um espaço meu, que espero que se torne vosso também! Aqui pretendo dar destaque a todos os desportos, dando especial atenção ao desporto feminino, que não tem o destaque que merece em Portugal, e ainda aos clubes e praticantes de diferentes desportos, designados de “pequenos”, mas que são sim “GRANDES” pelo sacrifício que fazem diariamente para que possam competir. Sempre que possível espero trazer ao meu cantinho vários convidados, e não poderia estar mais satisfeito com a minha primeira convidada.

CAROLINA ROCHA, 18 anos, natural de Leça da Palmeira, jogadora de futsal do Novasemente, que se sagrou CAMPEÃ OLÍMPICA DA JUVENTUDE com a seleção nacional feminina de futsal sub-19, na passada quarta-feira. A Carolina começou a praticar futsal com apenas 8 anos no Grupo Desportivo e Cultural Cohaemato, sendo considerada uma das maiores promessas do futsal feminino nacional.

Ricardo Santos (RS): Campeã olímpica da Juventude. Qual é a sensação?

Carolina Rocha (CR): Sensação de dever cumprido. Trabalhamos há 3 anos para isto. Mesmo sabendo que corríamos o risco de não sermos as selecionadas, trabalhamos muito, qualificámo-nos e viemos cá pôr em prática todo esse trabalho.

RS: Onde achas que esteve “a chave” para o sucesso?

CR: Na capacidade de motivação e de superação que temos quer individual quer coletivamente. Somos uma seleção que não se dá como satisfeita com pouco, queremos sempre mais, mais e melhor, se assim nos acharmos capazes de o fazer. Foram 3 anos intensos desta motivação e trabalho quer nos clubes, quer na seleção.

RS: Um percurso que não deixa margens para dúvidas (15-2 ao chile; 14-0 à república dominicana; 6-0 aos camarões; 2-0 ao japão; 16-2 à Bolívia e para terminar 4-1 aos japão na final). Em sonhos era tudo tão perfeito? (risos)

CR: Acho que em nenhum dos nossos melhores sonhos alguma vez sonhamos com o que estamos a viver. É inexplicável… Termos que saber “jogar” com o desconhecido do outro lado…ir para um jogo sem conhecer o adversário exigiu de nós um compromisso ainda maior. Tudo se conquistou como já realcei com trabalho, muito respeito e foco.

RS: Esta caminhada para o título começou por ti. Foste a primeira de todas a marcar na competição, logo apenas com cerca de 3 minutos. Como foi esse momento?

CR: Muito especial…todos os golos pela seleção são únicos e especiais à sua maneira, com a sua importância. Marcar o golo olhar para as minhas colegas e ver os sorrisos de um lado ao outro das suas caras foi algo de fantástica…soube logo que o nosso caminho ia ser risonho.

RS: De todo o percurso nestes Jogos Olímpicos da Juventude, qual o momento que mais destacas?

CR: São tantos momentos bons que é difícil destacar um…mas aqueles últimos 5 segundos contra o Japão que mais pareciam uns 5 minutos…saber que íamos ganhar. Era ali, estava mesmo a acontecer…correr e abraçar aquela que foi a nossa família no último mês…foi muito especial.

RS: Abordando agora mais esse jogo decisivo frente ao Japão, que dizer do vosso arranque? (risos) 5 segundos e golo…

CR: Fruto de trabalho e preparação. Fifó matadora na competição e ainda bem! Não podíamos ter começado de melhor maneira.

RS: No Segundo golo fizeste magia, e ofereceste o golo à Fifó. Se disser que parecia que estava a ver Ricardinho a jogar, será exagero da minha parte? (risos)

CR: Exagero é pouco (risos) O nível do Ricardinho é inatingível…mas não deixo de agradecer o elogio! Para além disso a Magia é algo que se constrói coletivamente e nós jovens ambiciosas temos sempre em mente o melhor dos melhores.

RS: Em que momento percebeste que o titulo já não vos fugia?

CR: Na modalidade que praticamos sabemos que tudo é possível…1 segundo faz toda a diferença apesar do resultado “largo” que se encontrava por 3 golos de diferença…poderia dizer que acreditamos desde início que este título não nos ia fugir e concluir que desde o primeiro segundo até ao último jamais nos distraímos daquilo que queríamos. O último minuto demorou uma eternidade. Mas foi o minuto de felicidade mais certo que já senti até hoje.

RS: Depois da conquista, e de toda a festa vivida, como estão a ser as tuas primeiras horas como campeã olímpica da juventude?

CR: Acho que não tenho bem noção do que sou, nem do que estou a viver…ontem acordamos todas mais cedo do que o despertador, hoje acordamos com o despertador, super cansadas e a pensar ”mas onde é que eu estou? Eu já ganhei? De certeza?” Só queremos berrar por “Portugal” onde quer que passemos e carregar a medalha enquanto o pescoço aguentar, diga-se de passagem que é bastante pesada (risos). Estou muito feliz mas agora que a competição acabou só queremos ir para a casa e festejar com quem nos apoio e fez com que estivéssemos aqui focadas e seguras do amor que sentem por nós.

Hoje a Rainha 👑 está de parabéns, mas a Princesa resolveu partir tudo com esta surpresa enviada do outro lado do mundo, da terra das Pampas. Linda e emocionante, só ao alcance de alguém tão especial como a sua mãe. Tentem não se emocionar muito a ver. Eu já vi algumas vezes e confesso que não consegui. 😓Carol, és linda, és a maior!!! ❤

Publicado por José Luzia em Segunda-feira, 15 de outubro de 2018

RS: Por falar nessas pessoas, no passado dia 15 fez anos uma das pessoas mais importantes da tua vida, a tua mãe, e estando longe, preparaste-lhe uma surpresa muito engraçada (ver vídeo em cima). Foi difícil estar longe dela nesse dia?

CR: Cada segundo da minha vida longe da minha mãe é uma tortura. Todos os dias são difíceis mas esse dia custou de uma maneira especialmente mais complicada. Preparei-lhe a surpresa com todo o amor porque sei que este “sofrimento” é mútuo e a reação dela só me fez acreditar mais uma vez que devemos sonhar sempre alto. A minha mãe é tudo para mim. Se eu estou onde estou, a viver o que estou a viver é graças a ela, que me deu asas para voar assegurando-me de que ampara todas as minhas quedas. É a minha inspiração…só quero que chegue domingo para finalmente a poder ver e dar-lhe a sua verdadeira prenda, a medalha de ouro!

RS: Depois de falar na tua mãe, é hora de falar no teu mister. Qual o papel do mister Conceição nesta conquista?

CR: Não vejo o Mister Luís sem o Mister Ricardo. Completam-se. O que um tem a mais outro tem a menos e vice-versa, não faz sentido falar de um sem falar de outro porque os vemos como um só. Papel de treinadores, pais, amigos, professores, educadores de infância em alguns momentos (risos) há tempo para tudo, mas a verdade é que são uns santos por nos aturarem tanto tempo com tanta paciência. Papel de liderança…olhamos para eles como a voz, o comando. Eles pensam nós executamos. É graças ao seu trabalho que temos vindo a conquistar tantas coisas boas para a nossa carreira, que pretendemos que passem pelas mãos deles durante muitos mais anos.

RS: Depois de mais uns dias de festa, da chegada a Portugal, de matar saudades, é hora de voltar ao clube. O que podemos esperar de ti?

CR: O mesmo compromisso e entrega de sempre. Nem mais nem menos perante este torneio porque não creio que algo tenha mudado…

RS: Quais os teus objetivos a médio e longo prazo?

CR: Os meus objetivos passam pelos objetivos coletivos do clube. Perdemos a Supertaça mas temos um Campeonato Nacional e uma Taça De Portugal a disputar! E os objetivos passam por ganhar essas duas competições.

RS: E a nível de seleção o que esperas, depois deste trajeto dos Sub-17 aos sub-19 que culminou com a conquista nos jogos olímpicos da juventude?

CR: A seleção sub-19 vai continuar o resto da época, teremos estágios e tenho como objetivo estar em todas as convocatórias. Quanto à seleção A, para além de considerar quase inatingível é um sonho que tenho desde que comecei a jogar, chegar onde estão as melhores. Mas não tenho pressa nenhuma nem gosto de pensar muito nisso porque todos esses privilégios vêm por acréscimo de trabalho, portanto tenho que chegar ao clube e trabalhar muito.

RS: Tens referências no mundo do futsal? Se sim quem são?

CR: A minha maior referência para tudo é a minha mãe. Como já disse anteriormente, tudo o que estou a viver é graças a ela que me dá força, que apoia cada passo meu incondicionalmente, mas a nível desportivo tenho duas bem grandes: Andreia Júnior Marques, atleta da Novasemente, e Inês Fernandes, atleta do SL Benfica.

RS: O futsal feminino, ou até mais no geral, o desporto feminino, achas que tem o devido apoio destaque em Portugal?

CR: Não tem, de todo. Mas já foi pior. Há bastantes pessoas a trabalhar e a esforçarem-se pela propaganda e respetiva evolução da modalidade e com o tempo creio que tudo tem tendência para melhorar.

RS: Para terminar deixa uma mensagem às pessoas que acompanham a tua carreira…

CR: É injusto fazer referências individuais no que toca a agradecimentos. No entanto não deixo de destacar, Júnior e Angélica por serem colegas e amigas incansáveis. A minha família que me apoia incondicionalmente. E a minha mãe que é a minha maior força e razão de viver. Rodeada de pessoas boas ter sucesso na vida é tão simples.

Durante a entrevista, percebi o quanto a tua mãe é importante para ti, Carolina. Portanto decidi preparar-te aqui uma surpresa e fui falar com a Dona Salette, para te deixar umas palavras. Espero que gostes!

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Salette Taboada (sobre a surpresa preparada pela Carolina): Olhe sem palavras…Para ela foi o maior desgosto não estar no meu aniversário e eu com palavras de mãe fui-lhe dizendo que pela vida fora de calhar nem sempre fôssemos estar juntas. No fim-de-semana ela já começou a chorar, acho que também eram saudades, tudo à mistura e só falava no aniversário até que à meia-noite sou surpreendida com a melhor das surpresas. Uma ideia que foi pensada desde cá porque segundo ela a ausência dela tinha que ser compensada com uma coisa que ficasse na história. Já lá vão 7 mil e tal visualizações.”

Salette Taboada (sobre a Carolina): “Falar da Carolina é prazeroso, é uma filha extraordinária, a minha melhor Amiga sem dúvida alguma! É um Ser Humano fabuloso! Amiga do seu amigo, daquelas que tira a camisola se o Amigo/a tiver frio. É uma miúda muito responsável, boa ouvinte, solidária. Vivemos em Leça da Palmeira, um meio pequeno, onde ela é muito conhecida devido à profissão que tive durante 21 anos, empregada de balcão numa papelaria aqui muito conhecida. Também começou a jogar pequenita com 7/8 anos aqui no Gd Cohaemato, onde jogou até aos 15 anos e por jogar com rapazes mais sobressaía. E eu passo a ser também falada no bom sentido porque a acompanho para todo o lado menos à Argentina com a maior das penas. Acho que chegam as 2 mãos para contabilizar as minhas ausências destes 10/11 anos de futsal. É uma miúda emotiva daí o gerir menos bem a ansiedade. Teimosa quanto baste. Obstinada também. É mesmo Amor que sente pelo futsal porque aos sacrifícios que faz em virtude do mesmo, só pode ser amor. Sou mesmo uma sortuda em tê-la como Filha e os Jogos Olímpicos foram mesmo a maior aventura, nunca nos tínhamos separado durante um período tão longo e com tantos milhares de quilómetros pelo meio!”

Resta-me agradecer à Carolina, por toda a disponibilidade, demonstrada desde o primeiro minuto, para realizar esta entrevista e desejar-lhe toda a sorte do Mundo, quer em termos profissionais como pessoais. Um agradecimento muito especial também à Dona Salette Taboada, por ter acedido imediatamente ao meu pedido.

Referir que as Campeãs Olímpicas viajam da capital da Argentina para Madrid, num voo com a duração de 12 horas. De Espanha seguirão para Portugal, estando a chegada prevista ao Aeroporto de Lisboa pela 9h10 de amanhã. Quem estiver por perto, passe por lá, para receber as nossas campeãs que fizeram história.

Espero que tenham gostado, desta primeira rubrica, d`O Cantinho do Santos.