O Cantinho do Santos: Convidada Raquel Esteves Santos

Sejam bem vindos novamente ao meu cantinho. Hoje tenho o prazer de receber aqui, no meu espaço, uma jovem jogadora de futsal, que admiro imenso, que tem um pé esquerdo bombástico e que tenho a certeza que iremos ouvir falar muito dela no futuro: RAQUEL ESTEVES SANTOS, jogadora do Sport Lisboa e Benfica, 21 anos, licenciada em Exercício e Bem-Estar e que atualmente está a tirar o mestrado em Gestão do Desporto.

RICARDO SANTOS: Para quem não te conhece, quem é a Raquel Esteves Santos?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Raquel Esteves Santos, prazer! Tenho 21 anos, sou natural de Torres Vedras, distrito de Lisboa. Sou licenciada em Exercício e Bem-Estar na Universidade Lusofóna de Humanidades e Tecnologias. Atualmente estou a tirar mestrado em Gestão do Desporto na Faculdade de Motricidade Humana. Desportivamente, prático desporto desde que me lembro. Joguei futebol 7 com os rapazes, até aos 11/12 anos. Depois tive de desistir porque só era permitido equipas mistas até aos 12 anos. Comecei a jogar futsal com 13 anos em Torres Vedras. Aos 18 anos recebi um convite para jogar futsal no Sport Lisboa e Benfica.

RICARDO SANTOS: Começando pela parte da licenciatura e mestrado, sempre quiseste estar numa área ligada ao desporto?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Sim, sempre. Desde o secundário que sempre soube e disse que queria futuramente estar ligada ao desporto.

RICARDO SANTOS: Tendo começado no futebol, ingressas-te no futsal aos 13 por não haver futebol feminino em Torres Vedras?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Exatamente. Naquela altura o futebol feminino ainda era pouco reconhecido em Torres Vedras, dado que as equipas femininas ficavam todas muito longe de onde vivia. Por isso tive de optar pelo futsal.

RICARDO SANTOS: Até chegares ao Benfica, que momentos destacas na tua formação?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Enquanto joguei futebol, considerava-me uma rapariga apaixonada pela modalidade, o que me marcou e fez crescer bastante. Jogar com rapazes é muito diferente e sentia-me diferente por ser uma das únicas raparigas. Naquela altura já se notava a minha velocidade e o meu pé esquerdo que ainda hoje me caracterizam. Relativamente ao futsal, joguei quatro anos no “Clube Futebol os Paulenses”, que se encontra atualmente na 1ª divisão distrital de Lisboa, onde aprendi e cresci bastante, tanto com os vários treinadores que tive, como com as minhas colegas de equipas que sempre me apoiaram, ajudaram em tudo. Fui várias vezes considerada melhor jogadora e melhor marcadora o que me motivava ainda mais para ser melhor. Aos 16 anos recebi convite do Sporting e do Benfica, mas concordei com a minha mãe ao explicar-me que primeiro estava a escola, que não iria ser fácil ir e voltar de tão longe e que tinha todo o tempo do mundo para “brilhar”.

RICARDO SANTOS: E passados dois anos estavas a assinar pelo Benfica. Recorda-me esse dia…

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Lembro-me que recebi uma chamada a mostrar o interesse que tinham em mim e que queriam falar comigo pessoalmente. Foi um dia bastante feliz, sentia-me concretizada.

RICARDO SANTOS: Como foi a adaptação a uma realidade completamente diferente da qual estavas habituada?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: O primeiro ano foi muito difícil. Foi uma transição muito grande a todos os níveis e a adaptação levou algum tempo. Acabei o 12º ano e fui para a universidade. Deixei de jogar voleibol (joguei 3 anos federada em simultâneo com o futsal, desde o 10º até ao 12º ano, na Escola Secundária Madeira Torres, que hoje são um grande nome do voleibol nacional) e deixei a minha “família” do futsal com quem já estava há 4 anos. Vivia com os meus pais no meu porto de abrigo e mudei-me para um quarto que aluguei em Lisboa, dado que os treinos do Benfica acabavam muito tarde e ia ser muito difícil. Resumidamente deixei toda a minha vida, todos os meus amigos, família e a minha rotina para vir para o desconhecido e começar esta nova aventura.

RICARDO SANTOS: É possível estudar-se e jogar dois desportos a um bom nível ao mesmo tempo? (risos)

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Sim é possível, mas também é necessário ter muito amor ao desporto (risos). Treinava três vezes por semana voleibol e duas vezes futsal, e lembro-me perfeitamente de à segunda e à sexta ter de sair mais cedo dos treinos de voleibol para poder ir a casa comer qualquer coisa e ir para o treino de futsal. Às vezes até em dias de jogos acontecia. Uma correria de vida que adorava! Apesar de nunca ter sido uma aluna de estudar muito, sempre consegui tirar boas notas e conciliar bem o desporto com os estudos.

RICARDO SANTOS: Voltando ao Benfica, como foi chegar a um clube onde passaste a dividir balneário com algumas das melhores jogadores portuguesas e mundiais de futsal?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Foi e ainda hoje é incrível poder jogar com as melhores de Portugal e até mesmo do mundo. Existe uma qualidade acima do normal, sem dúvida alguma. O amor à modalidade, a disciplina,o compromisso e a qualidade caracterizam a nossa equipa. É um privilégio partilhar o balneário com as melhores, aprende-se todos os dias.

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O SL BENFICA venceu a SUPERTAÇA desta ano, derrotando na final o Novasemente nas grandes penalidades (4-4 no tempo regulamentar tendo a Raquel Esteves Santos marcado dois golos)

RICARDO SANTOS: Desde que chegaste ao Benfica, basicamente só sabes vencer. Não cansa? (risos)

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Cansar? Nunca (risos). Antes pelo contrário. Quanto mais ganhamos mais sabemos o quão as equipas nos querem vencer e isso ainda nos dá mais força.

RICARDO SANTOS: De época para época estás cada vez mais a ganhar destaque na equipa do Benfica. Objetivos pessoais e coletivos para esta época?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Objetivos pessoais: evoluir cada vez mais como jogadora e continuar a ir à seleção nacional Objetivos coletivos: ganhar tudo o que ganhamos anteriormente (taça de Portugal e campeonato) e ganhar o europeu (se se realizar).

RICARDO SANTOS: Começaste a época “diabólica” (risos)…dois golos na supertaça que o Benfica venceu e dois golos no primeiro jogo do campeonato. Vamos ter a Raquel Esteves Santos mais concretizadora de sempre, este ano?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Espero que sim! Tem tudo para correr bem! O mais importante é continuar a trabalhar e não desmotivar, o resto acontece naturalmente.

RICARDO SANTOS: 23 DE OUTUBRO DE 2018…Fala-me deste dia?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Foi um dia incrível…os nervos estavam à flor da pele, como se costuma dizer. Ouvir o hino deu-me arrepios de cima abaixo. Estrear-me pela seleção nacional e marcar um golo foi um sentimento de orgulho, tanto pessoal como por representar o meu país.

RICARDO SANTOS: Apesar de uma excelente temporada no Benfica, de fazeres parte da seleção nos jogos prè final 4 do EURO, não foste convocada para a final 4. Como lidaste com isso?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Nem sequer pensei muito nisso. A minha ida à seleção é muito recente e sei que ainda tenho de trabalhar muito para conseguir a minha permanência lá.

RICARDO SANTOS: Falando agora do desporto feminino e mais concretamente do futsal feminino, o que achas da visibilidade atual que é dada ao futsal feminino, e dos apoios que são dados às jogadoras?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Infelizmente nada se compara ao masculino. Sei que existem muitos que têm amor ao desporto mas sei também que muitos jogam pelo dinheiro e não os julgo. Se as mulheres jogassem pelo dinheiro, muitas não tinham dinheiro para se sustentar. Nós sim, somos a verdadeira prova de amor ao futebol, neste caso, ao futsal. Felizmente as coisas, mais concretamente no futsal feminino, estão a crescer e cada vez mais há a tentativa à igualdade de género, o que é bastante bom: cada vez há mais apoio às jogadoras, mais reconhecimento, mais seriedade e mais profissionalismo.

RICARDO SANTOS: E quanto ao preconceito de que as mulheres devem estar em casa, e que o desporto não é para meninas. Ainda sentes que existe essa ideia em muitas pessoas nos pavilhões?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Atualmente e felizmente, já são raras as situações em que ouço comentários infelizes como esses. Acredito que haja muitas pessoas dentro e fora do pavilhão que pensem dessa maneira.

Um dos dois golos marcados pela Raquel Esteves Santos, no passado fim de semana, na vitória do Benfica por 8.2 diante dos Leões de Porto Salvo

RICARDO SANTOS: Se tivesses de comparar o teu pé esquerdo a algo seria ao quê? (risos)

RAQUEL ESTEVES SANTOS: É uma boa pergunta (risos), não faço ideia.

RICARDO SANTOS: Quais as tuas referências no futsal?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Inês Fernandes, sem dúvida! Um exemplo de pessoa e profissional, não tenho nada a apontar.

RICARDO SANTOS: Deixando o futsal, a nível de redes sociais, és uma pessoa que liga muito, alguma coisa, nem por isso

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Sim gosto, partilho algumas coisas nas redes sociais, mas nada por aí além!

RICARDO SANTOS: Metem-se muito contigo os rapazes? (risos)

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Alguns (risos), nada por aí além.

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NÃO GOSTO DE ananás, acordar cedo, arrogância, passar a ferro, cócegas, ter a mesma rotina durante muito tempo, ter fome e não saber o que comer (risos)

RICARDO SANTOS: Um dos dias mais felizes que viveste foi…

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Quando recebi o prémio de melhor atacante do mundial universitário.

RICARDO SANTOS: Um dos piores foi…

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Quando soube que a minha avó estava muito doente.

RICARDO SANTOS: Uma música, e porquê?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Stay alive – José González. Traz-me tranquilidade e serenidade.

RICARDO SANTOS: Um filme e porquê?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Coco da Disney. Faz-me lembrar os meus avós.

RICARDO SANTOS: O que farias se te saísse o Euromilhões?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: É uma boa pergunta! Mas provavelmente ia viajar durante muitoooo tempo.

RICARDO SANTOS: O que diz o teu coração?

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Clichê mas verdadeiro: viver a vida ao máximo e ser feliz.

RICARDO SANTOS: Para fechar, uma mensagem que queiras deixar a quem te acompanha…

RAQUEL ESTEVES SANTOS: Que acreditem sempre naquilo que valem, nos seus princípios e naquilo que são. Não deixem que ninguém vos demonstre o contrário e que vos deite abaixo. Lutem por aquilo que querem e simplesmente façam o que vos deixa felizes e concretizados.