Entrevista a Pedro Mendonça: Hoje muitas vezes o “ouvi dizer” sobrepõe-se ao “eu sei e confirmei que é assim”

Fique a conhecer mais sobre Pedro Mendonça , Jornalista da Sport TV.

AD: Quando é que surgiu a tua paixão pelo jornalismo? 

PM: Desde que me lembro que falava de jornalismo em casa. Quando surgem aquelas conversas de mesa de “o que queres ser quando fores grande” sempre falei em ser jornalista. Gostava de contar histórias, investigar, ir mais além, mostrar que uma história pode ter vários lados e mostrá-los a todos. Foi isso que me levou a colocar na minha cabeça que esse era o caminho… Outra das áreas que tinha interesse era o Direito, mas fazia-me comichão poder ter de acusar inocentes ou defender culpados e dou-me muito mal com injustiças e coloquei de parte essa área. Diria que lá pelo 5.º/6.º ano decidi que era jornalismo, no 9º não tive dúvidas escolhendo humanidades e segui o meu percurso normal que terminou com uma licenciatura. E a paixão era sempre a mesma: respeitar os outros mas tentar fazer mais e melhor sempre com esse lado que acho que é e será sempre imprescindível nesta profissão: ser sério, verdadeiro e respeitar sempre quem está do outro lado independentemente de concordarmos ou não com a sua forma de pensar e agir.

AD: Em míudo imaginavas-te como um pivot de um canal de referência como a Sport TV? 

PM: Sinceramente, não me imaginava de forma alguma. Esta é a verdade. O desporto sempre foi uma paixão porque me lembro de fazer desporto praticamente desde que nasci e os meus tempos livres foram passados sempre a fazer desporto – nem que fosse a jogar à ‘carica’. Comecei o meu percurso num jornal e sempre que escrevia tinha um dilema: as pessoas não estão a ver o que estou a escrever. Na televisão, sim, usamos imagens para ilustra o que queremos passar e isso tem uma força brutal. Respondendo concretamente à questão, tenho de a dividir em vários pontos: o primeiro é que não me vejo como referência. Não gosto desse termo. Nem para mim nem para ninguém. Naturalmente que gosto de ver reconhecido o meu trabalho e fico agradado com isso. Não é reconhecerem-me a mim, mas sim ao meu trabalho. Isso sim deixa-me feliz. Logicamente que fico realizado por contribuir para o crescimento de uma televisão tão importante como a SPORT TV, claro que fico realizado por ser uma das muitas caras que todos os dias trabalham arduamente para fazer mais e melhor, mas mais importante que isso, é sentir que lá em casa apreciam esse trabalho. E já percebem as expressões, o tom de voz, o olhar…isso sim é o casamento perfeito, sentir que estamos a trabalhar para milhares de pessoas e elas já nos entendem só com um olhar. Há ainda outro ponto: não gosto de olhar para um jornalista como pivot. Acho que pivot é uma das muitas coisas que podemos fazer em televisão. Prefiro que olhem para mim como um jornalista. E esta parte da resposta é também um conselho para os mais novos que olham para a televisão à procura de fama e o deslumbramento do mundo da televisão. Em cada dez pessoas que falam comigo, 9 perguntam se a SPORT TV precisa de pivots? E esse é logo o cartão de visita para as excluir de um eventual interesse. Porque, como em tudo na vida, temos de fazer um percurso e há tanto, mas tanto para fazer em televisão e, acreditem, não é falsa modéstia, o trabalho que é feito até o pivot apresentar é imenso e todos os que escrevem notícias, fazem peças, tiram imagens, isolam declarações… todos eles fazem um jornal e todos têm a sua fatia do jornal. Aos mais novos eu digo: queiram ser jornalistas. Jornalistas a sério. E depois, com naturalidade vão estar em posição de darem a cara por um canal.

AD:Foste um dos jornalistas pioneiros do canal A Bola TV. Sendo um ex jornalista desse canal, concordaste sempre com a linha editorial do jornal? 

PM: Se quisesse dar uma resposta curta e fria, diria já que não. Não, não concordei sempre com a linha editorial do canal. Se desenvolver a resposta então tenho de dizer o seguinte: Não, não concordei e ainda bem que assim foi porque acredito muito que uma boa discussão pode levar-nos para algo melhor e com mais valor. Porém, não concordar é diferente de respeitar. E mesmo as decisões em que não concordei olhei para elas como se fossem minhas. Em todas as redações há decisões com as quais não concordamos. Sou a favor do espaço para discussão de pontos de vista e a tentativa de chegar a uma decisão final que, mais uma vez, vá ao encontro de quem nos vê em casa que é sempre o mais importante. Há casos claros de discussão do que é mais importante em determinado dia, se devemos abrir com Benfica, FC Porto ou Sporting ou se, por outro lado, será mais importante alguma notícias de futebol internacional… mas sendo o mais sincero possível, enquanto fiz parte da equipa de coordenação de A BOLA TV tive sempre total liberdade para decidir como organizar os jornais e qual a ordem de importância que devia dar aos diferentes assuntos. Concluindo, não há linhas editoriais perfeitas, mas temos e devemos sentir que nesse processo evoluímos para algo que entusiasme quem está em casa.

AD: Tu foste o enviado especial de A Bola TV ao Euro 2016, tendo vivido de perto a conquista Portuguesa. Consideras que foi um dos momentos altos da tua carreira? 

PM: Não diria um dos momentos mais altos da minha carreira. É sem dúvida O MOMENTO da minha carreira. E já lá vão 15 anos enquanto jornalista. Acho que podem passar muitos mais anos e nunca vou viver algo assim. Por tudo. Pelo que todos viram e sabem, a grande conquista da Seleção Nacional e um Europeu fantástico a todos os níveis, e o que isso nos oferece para trabalhar. É exigente, muito desgastante, mas somos como as equipas de futebol: trabalhar em cima de vitórias é tão mais fácil… À margem disso foram 41 dias fora de casa, com dois filhos, um deles muito pequeno, a pedirem a presença do pai, foram dezenas de horas em direto, foram quase 20 mil quilómetros de carro, noites mal dormidas – acho que o máximo que dormi foram 4 horas – muitos sprints, refeições que não existiram, o lutar contra os gigantes – sim, eu e o repórter de imagem Edgar Pacheco eramos os únicos representantes de A BOLA TV – mas a fazer tudo sem deixar nada a desejar. Íamos a todas, conseguimos alguns exclusivos, conseguimos algum respeito e conseguimos também impulsionar um pouco a imagem do canal que defendíamos e que, até ao último dos meus dias, vou levar no coração e, sem dúvida, foi lá que criei as minhas melhores memórias profissionais. Ora como devem perceber, depois de 41 dias a deixar o pelo na estrada, chegar à final e conquistar o Europeu foi um momento que é impossível descrever em palavras. Recordo-me que o primeiro direto que fiz logo a seguir ao último apito dessa final foi em lágrimas e sem conseguir dizer qualquer palavra. Aliás, enquanto vos respondo, sinto um arrepio só de falar nisso e a lágrima está a pedir licença para cair. Lembro-me também que depois disso todos os canais tinham imensas equipas a mostrar o que podiam da festa e eu e o Edgar Pacheco, depois de quase implorarmos para nos manterem no ar, lá demos a festa da Seleção até altas horas da madrugada, ficando praticamente afónico de tantas horas consecutivas a narrar o que via e queria que as pessoas em casa sentissem também esse momento. Foram momentos únicos, mas que, como vos disse noutra resposta, eu era apenas a cara e a voz de muitas outras pessoas que em Lisboa, e com as condições possíveis, deixavam a pele na redação para que no final pudéssemos sentir orgulho do que tínhamos feito. E aconteça o que acontecer, e muitas dessas pessoas já nem estão n’A BOLA TV, vão guardar esse Europeu nas suas memórias profissionais. Deixo-vos um aparte para perceberem que os jornalistas também têm emoções e também sentem tudo à flor da pele… É verdade que chorei quando percebi que também eu era Campeão da Europa, mas o momento mais saboroso foi o regresso a Lisboa quando a minha filha correu pelo aeroporto para me abraçar e em lágrimas me dizer que tinha imensas saudades minhas. E lembro-me sempre da frase que lhe disse e tinha dito antes de viajar para Paris: “vai valer a pena!”

AD: José Manuel Freitas, ex-jornalista de A Bola TV e agora
comentador da CMTV. Consideras que continua a ser o teu ‘padrinho’ no jornalismo? 


PM: Não! De todo! O José Manuel Freitas, além de um profissional imenso, é um grande amigo que levarei sempre comigo. É daqueles jornalistas à antiga e tem algo que eu adoro nas pessoas, jornalistas ou não: é genuíno, diz o que pensa sem querer saber se gostam ou não do que dizem. Eu gosto de pessoas assim. Para quem não conhece o “Zé” dirá que ele é um bruto e um resmungão. Como lhe dizia tantas vezes… por detrás daquele gigante rezingão está um menino de coração bom e genuíno. Não gosto da expressão padrinho porque tem uma conotação que vira para a “cunha”. Respeito quem as aproveita, mas nunca precisei de uma para vingar na minha vida profissional. Mas se estamos a falar de pessoas que foram importantes no meu percurso profissional, então terei sempre de falar do António Simões, que foi o primeiro a abrir-me a porta do jornal A BOLA, do Fernando Guerra que me puxou e testou os limites e naturalmente do João Bonzinho que me deu as maiores oportunidades da minha vida e acreditou que era possível fazer mais e melhor, mesmo com pouco. Terei sempre uma dívida de gratidão para com ele, mais que não seja por me ter dado a oportunidade de fazer um Campeonato do Mundo e um Campeonato da Europa – ficam a faltar os Jogos Olímpicos.

AD: Quem são as tuas referências jornalísticas? 

PM: Sinceramente não tenho. Admiro algumas pessoas pelo trajeto e o que representaram em alguns momentos nas mais diversas áreas. Admiro quem dedicou uma vida a esta profissão tão complicada e que tentou sempre contar as melhores histórias aos leitores, espetadores ou ouvintes. Mas não tenho um nome que me salte logo. Admiro pessoas leais, com capacidade de trabalho e entrega. Isso são fatores para terem, pelo menos, a minha admiração.

AD: Como encaras o jornalismo de hoje em dia? Achas que se está a perder a noção de ‘jornalismo puro’? 

PM: Conhecem alguma área profissional que seja pura? Eu não! Acho que o jornalismo de hoje é diferente do de há 15 anos e será diferente do que se vai fazer daqui a 15 anos, em função, sobretudo da transformação existente nos meios, com o aparecimento das redes sociais, da pressão, do mediatismo, da concorrência. A questão é que hoje há menos recursos e as pessoas estão obrigadas e agir muitas vezes sem tempo para pensar, perguntar, investigar… Lembro-me que quando comecei “perdíamos” horas ao telefone para, no final do dia, recolher uma notícia. Hoje, infelizmente, muitas vezes o “ouvi dizer” sobrepõem-se ao “eu sei e confirmei que é assim”. Provavelmente daqui a dez anos se voltarmos a conversar, os argumentos serão outros.

AD: Ainda acreditas que tens na ponta da caneta a capacidade de mudar o mundo? 

PM: (risos). Não! E isto não quer dizer que seja pessimista ou que não acredite se possível fazer mudanças positivas. Mas acho que a maturidade e a experiência nos levam a olhar para as coisas de forma diferente. Acredito que posso aumentar a qualidade da SPORT TV, acredito que posso ajudar a fazer da SPORT TV um canal ainda melhor para os espetadores, acredito que ainda é possível fazer programas e espaços apelativos para quem vê televisão. E daqui a dez anos quero acreditar que, esteja onde estiver, posso acrescentar com algo e melhorar o que é feito. Quando deixar de acreditar… deixa de fazer sentido.

AD: Quais são as principais diferenças que há no jornalismo português e aquele que se pratica na Europa por exemplo? 

PM: Ponto prévio. Não são melhores nem piores, são diferentes. O que sinto e vejo é que há países que se antecipam aos novos tempos e nós em Portugal somos um pouco reativos. Ou seja: Alguns países antecipam-se mais rapidamente que nós em Portugal. O surgimento do online é um exemplo e o que foi feito lá fora. O perceber que o papel dos jornais atual é o contar a história para além da história e não reproduzir algo. E acho que aí ainda não demos o passo decisivo. Em matéria de televisão vejo por exemplo países que fazem um jornalismo mais informal com o qual me identifico e colhem mais familiaridade com os espetadores, já para não falar na tecnologia usada. Lembro-me que no Mundial do Brasil via programas com realidade aumentada que abrilhantavam qualquer emissão. Mais um exemplo que dou: eu gosto de falar com os repórteres no terreno como se estivéssemos cara a cara mesmo separados por milhares de quilómetros. E acredito que essa informalidade atrai mais pessoas. Mas há muitas resistências a alguns estilos. Mas não há formulas secretas ou mais certas que outras. Há estilos com que nos identificamos e depois ou temos capacidade e coragem para arriscar ou seguimos o caminho do rebanho com aquele estilo bem português do “assim não me espalho ao comprido”.

AD: Consideras que a era do ‘jornal’ tem os dias contados ou por outro lado, vai haver sempre quem prefira ler um bom jornal? 

PM: Questão difícil. Porque há dez anos que ouço que os jornais vão acabar e que os dias estão contados para o ‘papel’. A minha visão é diferente: se tiveres um projeto sólido, interessante, apelativo, criativo e bem estruturado financeiramente, então pode sobreviver. Independentemente das linhas editoriais e de concordarmos com elas, ou não, porque acham que o Correio da Manhã vende como vende? Porque tem um formato com que as pessoas se identificam, um pouco como o fenómeno dos reality shows: ninguém vê, mas todos compram. Todos dizem que é um jornal só de crimes mas é o mais vendido. E atenção que não estou a defender nada nem ninguém. Apenas constato factos. Mas deixo a questão: Se gostarem de um bom livro, escrito por um bom autor e com um bom tema, vocês compram? Ou pelo menos ponderam comprar? E atenção que o que é bom para mim pode ser mau para vocês. Mas se é bom, ou de acordo com os meus gostos, então eu compro. Se os jornais estão acabados? Não! Mas têm de se reinventar. Não podem replicar as informações que eu já fui bombardeado o dia todo. Têm sim de me dar algo mais. Caso contrário não vou pagar.

AD: Ao longo de todos os percursos há sempre muitos obstáculos. Qual foi o teu maior desafio? 

PM: Há tantos. Uns que parecem óbvios, outros nem tantos… A passagem do jornal para a televisão foi um deles, sem dúvida. Um misto de receio mas muita adrenalina e vontade de fazer diferente. O fazer o Mundial do Brasil nas condições que tinha em que era tudo contado ao minuto e “inventar” as mais variadas histórias e reinventar-me. O ter que dizer não ou sim contrariando quem manda para mostrar outro caminho que podia dar maior sucesso. Mas o meu maior desafio por razões lógicas foi o Europeu de 2016. Uma equipa de reportagem para fazer um Europeu inteiro. E fizemos. Com brio e muita qualidade. Acho que poucos acreditavam que eramos capazes… quase tantos como os que acreditavam que o Éder ia resolver a final.

AD: O futuro a Deus pertence. Mas, tendo que fazer um esboço daquilo que ambicionas que aconteça no teu futuro. Como imaginas a tua carreira daqui a dez anos? 

PM: Como eu costumo dizer aos meus amigos mais próximos…eu nem sei o que vou fazer amanhã, quanto mais daqui a dez anos. Mas provavelmente vou estar sempre ligado à Comunicação. Não sei se a fazer jornalismo, ou não. Mas é muito tempo para estar a projetar. Mas se daqui a dez anos estiver numa praia paradisíaca a desfrutar, prometo que lhes respondo novamente a uma entrevista. Combinado?