Entrevista a Luís Paulo Rodrigues: “Bruno de Carvalho é talvez a única figura sportinguista com capacidade de liderança para ser o “Pinto da Costa do Sporting”

ARENA DESPORTIVA (AD) – De onde surgiu o gosto pelo mundo da comunicação?

LUÍS PAULO RODRIGUES – Desde muito cedo que tomei contacto com os jornais. Não porque tivesse familiares jornalistas, mas porque tinha leitores em casa. O meu avô paterno e o meu pai foram assinantes do jornal “O Comércio do Porto”, jornal que manuseava ainda antes de aprender a ler. O jornal era entregue em casa, todas as manhãs, pelos distribuidores do próprio jornal, que se deslocavam em carrinhas Ford Transit, com o logótipo do próprio jornal. A partir das 7h00 ou 8h00 de cada manhã, o jornal chegava a casa, em Vila Nova de Famalicão. Estamos a falar da década de 1970.

AD – Sempre quis ser jornalista?

Este contacto com “O Comércio do Porto” ainda antes de saber ler fez com que, mais tarde, tivesse curiosidade de ler outros jornais, pelo que, ainda na adolescência, comecei a comprar jornais. Na escola gostava mais das letras do que da matemática. Com 18 anos, já sabia que queria ser jornalista e escrevi a diretores de vários jornais nacionais. Na década de 1980, a profissão de jornalista era prestigiada. Um jornalista era visto como alguém influente na sociedade. Ainda hoje guardo cartas de resposta dos diretores de jornais a quem escrevi. Acabei por ficar a correspondente da “Gazeta dos Desportos” e tornei-me profissional aos 22 anos, num jornal de Vila Nova de Famalicão, o “Cidade Hoje”, um semanário que ainda hoje se publica. Em 1988, o meu primeiro ordenado nesse jornal local era de 63.500 escudos mensais líquidos (cerca de 320 euros), quase o triplo do ordenado mínimo nacional da altura, que era de 135 euros. Hoje não pagam tanto.

AD – Em 1993, foi um dos primeiros profissionais portugueses a experimentar o teletrabalho, como jornalista do “Público”. Há muitas diferenças entre o jornalismo que se praticava na altura com o que se faz hoje em dia?

LUÍS PAULO RODRIGUESEra já um momento de transição para a era da Internet´. Recordo que o “Público” lançou a sua primeira edição online em 1995, na altura ainda sem as funcionalidades de hoje, bem grande interatividade com os leitores. Era possível clicar nos links e ler as notícias, as fotos eram pequeninas e era possível enviar um e-mail para a redação.

AD – E no jornalismo, no dia a dia das redações, quais as principais diferenças antes e depois da Internet?

LUÍS PAULO RODRIGUES Em finais da década de 1980, quando comecei a minha via profissional como jornalista, não havia assessores de comunicação, nem Internet, nem telemóveis. Um jornal diário era escrito todos os dias, praticamente da primeira à última página. Por outro lado, as raras notas de imprensa, quando chegavam à redação, eram um ponto de partida para uma notícia, uma entrevista ou uma reportagem. Funcionavam como fonte de informação, e não como um conteúdo pronto a ser publicado. Os jornais não se copiavam uns aos outros e tinham uma identidade própria, com conteúdos exclusivos. As diferenças entre os jornais estavam à vista em cada notícia publicada no dia seguinte ao acontecimento. Com isso, o vínculo entre o leitor e o seu jornal era forte e comprometido. Nesse tempo, os jornalistas que queriam entrevistar um ministro, um presidente de Câmara ou o presidente de um clube de futebol combinavam diretamente com as pessoas a entrevistar e não tinham de passar pelo filtro da assessoria.  O surgimento da Internet e a possibilidade de podermos transmitir dados por via digital foram as novidades que começaram a mudar o mundo da comunicação na década de 1990, revolucionando o jornalismo e multiplicando os agentes de comunicação produtores e emissores de informação. A comunicação passou a ser instantânea e os jornalistas deixaram de ter tempo para pensar. Por outro lado, com a multiplicação de polos criadores e emissores de informação, o valor da informação baixou, porque há muita oferta. Finalmente, um grave problema para o financiamento do negócio: com a Internet e as redes sociais, as empresas e as marcas que antes gastavam milhões em publicidade passaram a poder comunicar diretamente com os seus públicos, produzindo os seus conteúdos, e deixaram de ter interesse em fazer publicidade nos meios de comunicação, que era a grande fonte de financiamento da imprensa. Daí a grave crise que atravessa toda a imprensa, inclusive as televisões, uma vez que os novos públicos já não querem saber da televisão para nada. Costumo dar o exemplo do quarto de hotel. Antigamente, os hóspedes não dispensavam a televisão no quarto. Agora não dispensam a rede wi-fi.

AD – Sei que tem um blogue “Comunicação Integrada”, que foi considerado pelo jornal “Meios & Publicidade” como um dos blogues portugueses obrigatórios em assuntos de comunicação. Como é que surgiu a ideia de criar um blogue?

LUÍS PAULO RODRIGUES Escrever sobre comunicação, marketing e jornalismo é escrever sobre assuntos de que gosto muito e que têm a ver com o meu trabalho como consultor de comunicação. Ao escrever no blogue – e confesso que, por falta de tempo, não o tenho atualizado ao ritmo que gostaria –, estou a dizer ao mercado que pode confiar em mim, nos meus serviços de comunicação. Atualmente, todos os profissionais devem ser bons naquilo que fazem para poderem captar clientes. E um bloque ajuda um profissional ou uma empresa a tornar-se numa autoridade sobre as matérias que têm a ver com o seu trabalho ou com os serviços que presta aos clientes.

AD – Em 2018, aceitou um convite de Bruno de Carvalho para integrar uma candidatura a vice-presidente do Sporting com responsabilidade pela comunicação do clube. Na altura Bruno de Carvalho era muito atacado e foi impedido de se candidatar. Por que é que aceitou o convite?

LUÍS PAULO RODRIGUES Um ano antes, Bruno de Carvalho tinha-me convidado para integrar uma candidatura ao Conselho Leonino e na altura, em que praticamente todo o universo sportinguista estava com ele, por razões pessoais não estava em condições para aceitar. Em 2018, depois daquele final de temporada rocambolesco, depois da invasão à academia e depois da polémica assembleia geral que destituiu Bruno de Carvalho da presidência, aceitar o convite de Bruno de Carvalho naquelas circunstâncias foi um ato de lealdade a um presidente que, em cinco anos devolveu-nos o prazer e o orgulho de sermos sportinguistas, mas foi, também, um ato de coragem. Muitos sportinguistas deixaram de falar comigo. No dia em que apareci na televisão a receber o abraço de Bruno de Carvalho, quando a então possível candidatura foi apresentada, grupos do Facebook afetos a outros candidatos expulsaram-me. O clima era de forte divisão entre sportinguistas. E esse clima mantém-se quase dois anos depois. Frederico Varandas não soube unir o Sporting e moveu-se sempre por uma prática de ódio a tudo o que tinha a ver com Bruno de Carvalho. Foi o seu grande erro estratégico.

AD – 2018 foi um ano marcante para o Sporting, e não pelas melhores razões. O ataque a Alcochete e toda a polémica em torno do Sporting foram os principais motivos para a expulsão de Bruno de Carvalho. Podemos considerar que o ex-presidente do Sporting foi o “principal” culpado pelo ataque à Academia?

LUÍS PAULO RODRIGUES Em 2018, o que me afastou de Bruno de Carvalho foi o facto de ele não ter apresentado a sua demissão na noite do dia do ataque a Alcochete. Se ele tivesse apresentado a sua demissão imediatamente, hoje seria presidente do Sporting Clube de Portugal. E, provavelmente, o Sporting Clube de Portugal já teria sido campeão nacional. Quando, no Facebook, cheguei a escrever que Bruno de Carvalho deveria demitir-se, era no pressuposto de que apresentaria uma recandidatura. Porque, no universo leonino, não via ninguém, como ainda não vejo, com capacidade para liderar com sucesso o nosso clube. Quanto à invasão à Academia de Alcochete, obviamente que, se desconfiasse que Bruno de Carvalho estava envolvido jamais aceitaria integrar a lista dele. Obviamente que o que aconteceu foi gravíssimo e não pode voltar a acontecer. Mas daí a pensar que Bruno de Carvalho foi o responsável pelo ataque é algo que só poderia sair da capacidade criativa e sanguinária da CMTV – meio de comunicação que, recorrendo a ações criminosas de violação da Lei de Imprensa, liderou a produção de uma narrativa que destruiu Bruno de Carvalho e colocou o Sporting Clube de Portugal num pântano sem fim à vista.

Vila Nova de Famalicão, 06/06/2018 – Luís Paulo Rodrigues, adepto do Sporting, fotografado para a rúbrica tribuna VIP, junto do jardim da biblioteca Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Famalicão. Luís Paulo Rodrigues (Miguel Pereira/Global Imagens)

AD – Há quem considere que Bruno de Carvalho queria ser um “clone” de Pinto da Costa, no entanto, não passava de “muita parra e pouca uva”. Com o passar do tempo, consideraram muitas vezes que o ex-presidente leonino liderava o clube de Alvalade de forma “doentia”. Na sua opinião, como considera o trabalho feito por BdC no Sporting?

LUÍS PAULO RODRIGUES Na campanha que o levou à presidência, em 2009, José Eduardo Bettencourt disse que o Sporting precisava de um Pinto da Costa. Eu percebi o sentido da frase. Penso que Bruno de Carvalho é talvez a única figura sportinguista com capacidade de liderança para ser o “Pinto da Costa do Sporting”. Nos cinco anos da sua presidência faltou-lhe, porém, algum discernimento na escolha dos alvos a abater. Um exemplo: quando assumiu a presidência do Sporting, Bruno de Carvalho elegeu o Benfica e o FC Porto como alvos a abater. Acho que foi um erro estratégico. Nessa altura, o poder do futebol já estava no Benfica…Julgo, também, que Bruno de Carvalho dedicou-se tão apaixonadamente ao clube que, muitas vezes, perdia o discernimento para tomar a melhor decisão. Por exemplo, ele conta no livro “Sem Filtro” que Jorge Jesus exigiu 8 milhões para renovar o contrato 15 minutos antes do último jogo da temporada 2015-2016, realizado em Braga. Ter dado a Jorge Jesus tudo aquilo que Jorge Jesus pediu, obrigando o Sporting a gastar muito dinheiro, foi, em minha opinião, um erro estratégico. Porque no segundo e terceiro anos de Jesus vieram muitos jogadores, e em alguns casos, jogadores muito caros em função do seu rendimento, e os resultados não existiram. Ao mesmo tempo, os jogadores da formação eram desprezados pelo treinador, salvo raras exceções. Fora estes aspetos, o trabalho de Bruno de Carvalho no Sporting foi fantástico. Foi o único presidente que deixou património para o clube. Realizou das maiores vendas do futebol leonino, duplicou as assistências em Alvalade, construiu o Pavilhão João Rocha e conseguiu colocar as modalidades a vencer.

Vila Nova de Famalicão, 06/06/2018 – Luís Paulo Rodrigues, adepto do Sporting, fotografado para a rúbrica tribuna VIP, junto do jardim da biblioteca Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Famalicão. Luís Paulo Rodrigues (Miguel Pereira/Global Imagens)

AD – Frederico Varandas é atualmente o presidente leonino. Qual é a sua opinião sobre ele?

LUÍS PAULO RODRIGUES Lamentavelmente, Frederico Varandas tem falhado em toda a linha. Falhou no propósito essencial de unir os sportinguistas, utilizando uma ação divisionista e um discurso revanchista. Está sempre a falar da herança deixada por Bruno de Carvalho, como se todos os sportinguistas fossem desinformados. Mas não é só: no futebol tem cometido muitos erros e os resultados estão à vista. Recentemente, afirmou que este é o ano da reconstrução do Sporting. Se calhar vai reconstruir a equipa de futebol que destruiu no último ano, com jogadores dados ou vendidos abaixo dos valores de mercado. A verdade é que a equipa de futebol do Sporting é hoje uma sombra daquilo que foi há dois ou três anos. É uma equipa sem cultura e sem identidade.

AD – Tendo aceitado anteriormente integrar uma lista para o Conselho Diretivo do Sporting, podemos antever uma futura formalização da sua parte de uma candidatura à presidência do Sporting, desta vez como “cabeça” de lista?

LUÍS PAULO RODRIGUES Acho que a mesma água não passa duas vezes debaixo da mesma ponte. A candidatura que referiu fazia sentido naquelas circunstâncias. Mesmo com toda a polémica, com todas as lavagens celebrais e com todas as mentiras publicadas por alguma imprensa, penso que Bruno de Carvalho venceria as eleições caso tivesse sido candidato. Mas os novos atores do poder em Alvalade que sucederam a Bruno de Carvalho não quiseram.

Vila Nova de Famalicão, 06/06/2018 – Luís Paulo Rodrigues, adepto do Sporting, fotografado para a rúbrica tribuna VIP, junto do jardim da biblioteca Biblioteca Municipal Camilo Castelo Branco, em Famalicão. Luís Paulo Rodrigues (Miguel Pereira/Global Imagens)

AD – Há vários anos que o objetivo maior dos clubes portugueses, o título de campeonato nacional, tem fugido ao Sporting Clube de Portugal. O que é necessário modificar para que o tão desejado campeonato regresse ao seio leonino?

LUÍS PAULO RODRIGUES – É preciso um clube unido e mobilizado, uma direção competente e na qual todos os sportinguistas se revejam, um bom treinador e um plantel competente e competitivo.