Entrevista a Filipe Sousa “Eu acredito muito no trabalho dos nutricionistas portugueses e que temos ferramentas para abraçar qualquer projeto”

Em entrevista na Arena Desportiva:

Filipe Sousa, Nutricionista no Desportivo das Aves, nutricionista colaborador no FC Shaktar e jogador no Pevídem SC.

AD: Como jogador de futebol fizeste toda a formação no Vitória SC e assinaste 2 anos de contrato profissional no último ano (2009). Para o teu percurso como jogador consideras que a formação no Vitória foi crucial?

FS: Mais do que só para o meu percurso como jogador, a minha formação no Vitória foi crucial na medida em que me incutiu muitos valores e princípios que foram e são fundamentais para a minha evolução pessoal. O compromisso e a responsabilidade eram muito fomentados nos meus tempos de formação e acho que, mais do que aprender o que é o jogo, nos seus aspetos técnicos e táticos, o Vitória ensinou-me atitudes e comportamentos que são muito mais importantes no desenvolvimento da carreira de qualquer jogador do que só saber jogar futebol.

AD: Ainda como jogador do Desportivo das Aves lutaram no play- off de acesso à subida à Primeira Liga e na Taça de Portugal foram apenas eliminados nos quartos de final pelo SC Braga. Consideras que foi um dos momentos altos do teu percurso no futebol?

FS: Sem dúvida que sim. A par da luta pelo campeonato nacional no meu último ano de júnior, essa época foi ponto mais alto da minha carreira. Eliminamos o Paços de Ferreira no estádio deles depois de estar a perder 1-0 (e na altura o Paços estava na primeira liga e o Aves na segunda) e depois tivemos a oportunidade de jogar no estádio do Braga, onde só fomos mesmo eliminados no prolongamento. São dois jogos que nunca vou esquecer porque foi quando verdadeiramente me senti jogador de futebol e onde comecei a ver que o sonho de chegar mais longe no futebol poderia ter pernas para andar. Depois ainda culminar essa época com a possibilidade de disputar o acesso à primeira liga num playoff a dois jogos foi incrível. Não correu como queríamos, mas ficará para sempre a memória de ver a mancha incrível de Avenses, debaixo de uma chuva torrencial, a torcer pelo seu clube da terra. Foram momentos inesquecíveis que, felizmente, esses adeptos passado uns anos conseguiram viver ainda mais intensamente quando o clube conseguiu a tão desejada subida à primeira liga.

AD: Já enquanto jogador do AD Oliveirense disputaste a fase final de acesso à segunda liga. Qual foi a sensação na altura?

FS: A sensação foi muito diferente da sensação experimentada no Aves ou de quando subi de divisão pelo Amarante FC. As condições que tínhamos na AD Oliveirense, à entrada para a fase final, eram precárias. Havia muitas confusões internas e, o grupo, apesar de ser fantástico e dos melhores que já tive em termos de qualidade individual e pessoal, não tinha ambição de lutar pela subida, porque éramos conscientes e realistas de que seria uma luta desigual.

AD: Em 2009 candidatas-te ao ensino superior e entras no curso de Ciências da Nutrição da Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação da Universidade do Porto. Foi fácil conciliar os estudos com o futebol?

FS: Nunca foi fácil conciliar os estudos com o futebol, mas foi algo que sempre pretendi fazer. Sempre tive os pés assentes na terra e sabia que o sonho de estar ao mais alto nível como jogador não era um sonho só meu, era o de tantos outros rapazes e jogadores como eu. Apesar de eu sentir que tinha capacidades para fazer carreira como profissional de futebol, era consciente de que esse trajeto iria depender de muitos fatores que não eram controlados por mim. E, como eu gosto de ter poder sobre a minha evolução profissional, sempre quis ter uma licenciatura para prosseguir uma carreira paralela. Era muito complicado arranjar horários para frequentar as aulas todas e nunca faltar aos treinos. Mas, quando há vontade, arranja-se sempre um jeito. E foi assim que fui fazendo os primeiros tempos do curso. Com maior ou menor dificuldade, mas sempre com uma enorme vontade e paixão pela nutrição.

AD: Depois de assinares pelo Freamunde , no ano seguinte, ausentaste-te do futebol para te dedicares apenas ao teu curso. No entanto, um ano depois, voltaste aos relvados, desta vez pelo AD Oliveirense. Podes dizer que o ‘amor’ à bola falou mais alto?

FS: Jogar futebol foi e sempre será a minha grande paixão. Eu só optei por me ausentar do futebol porque senti que tinha perdido o controlo da minha carreira. Tive más experiências com algumas pessoas que não me queriam ajudar e que não tomaram as melhores decisões, talvez por agirem por interesse próprio, que é algo bastante recorrente no futebol. E eu, por me sentir injustiçado e sem controlo da situação, optei por parar com o futebol e finalizar o curso. A situação da AD Oliveirense surge por intermédio de pessoas da minha confiança que me fizeram acreditar que poderia recuperar a motivação para estar no futebol. E, sem dúvida alguma, que o grupo de trabalho que apanhei nesse ano foi determinante para o evoluir de toda a minha vida profissional. Há pessoas e momentos que nos marcam, e, esse ano de transição foi fundamental para voltar a sentir que ainda podia dar muito ao futebol.

AD: Como nutricionista estás na 4a época ao serviço do Desportivo das Aves e na 2ª época consecutiva a colaborar com o FC Shaktar. Neste ramo, qual é o maior objetivo que pretendes alcançar?

FS: Na minha vida profissional vou traçando pequenas metas ao invés de grandes objetivos finais. Se nunca pensei poder colaborar tão cedo com uma equipa como o FC Shakhtar, não posso por de lado a possibilidade de um dia trabalhar a tempo inteiro num dos melhores clubes do mundo. Eu acredito muito no trabalho que é desenvolvido pelos nutricionistas portugueses e acredito muito que temos as ferramentas e capacidades necessárias para abraçar qualquer que seja o projeto. Por isso, o meu maior objetivo é ir cumprindo as pequenas metas que vou traçando, sempre solidificando bem cada degrau que vou subindo, com consciência, sem “mais olhos que barriga” e com “os pés bem assentes na terra”.

AD: Tens apenas 28 anos, e atualmente, como jogador, vestes a camisola pelo clube distrital , Pevidém SC. O que esperas do futuro enquanto jogador?


FS: Em jeito de brincadeira eu digo que, neste momento, o meu grande objetivo, enquanto jogador, é jogar pelo Pevidém SC nos campeonatos nacionais. Foi esse o desafio proposto quando cheguei, foi essa uma das razões que me fez abraçar esse projeto, e essa é a minha próxima meta. Temos pena que, ninguém saiba muito bem o que vai acontecer nas próximas semanas e que decisões serão tomadas em relação aos campeonatos distritais mas, estando na liderança isolada, sentimos que dificilmente nos escapará a subida de divisão esta época. O grupo de trabalho e as pessoas envolvidas na estrutura são do melhor que eu já vi no futebol. A motivação de estar naquele clube é máxima, por isso, passo a passo, ou jogo a jogo, como se diz no futebol, vamos vendo o que o futuro me reserva e o que o futuro reserva a este Pevidém. Mas uma coisa é certa, enquanto o clube preservar a sua mística atual, irá sempre contar comigo ao meu mais alto nível motivacional, com a responsabilidade e compromisso que sempre tive.

AD: O teu coração ‘fala’ mais alto pelo futebol ou pela nutrição?

FS: A última pergunta tinha que ser a mais complicada. Eu sou uma pessoa bastante racional, não decido só pelo coração nem só pela razão. Todas as decisões que tomo envolvem uma dose de ambas. Se o coração falasse, claramente que jogar futebol era o que ele diria em primeiro lugar. Mas, ninguém vive de medalhas ou de troféus. Jogar futebol vai ser sempre o meu grande amor, mas, a nutrição é a minha vida.