“Devaneios de um Nutricionista – Coronavírus, SARS-CoV-2, COVID-19, Sistema Imune e Nutrição… Uma confusão…” – Sérgio Pita Antão

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Se acham que o nome “Coronavírus” tornou-se demasiado “falado” desde há 3 meses, devo informar-vos que esta família de Vírus é muito comum no reino animal. Atualmente há 7 Coronavírus que podem infetar o comum humano, provocando doença. De forma a esclarecer alguns conceitos (mal difundidos pela comunicação social) o vírus que nos “assombra” nesta pandemia é o SARS-CoV-2 (ou Síndrome Respiratória Aguda Grave – Coronavírus 2) que causa a infeção COVID-19 (doença)(1)

 E porque é que a doença COVID-19 é alarmante? Principalmente pelo seu período de incubação mais longo (em relação a uma “gripe comum”) que contribui (e não só!) para que as pessoas só tenham sintomas 2 a 14 dias após infeção (sendo a média 5-6 dias). Ou seja, pessoas já infetadas, por parecerem estar saudáveis, continuam a transmitir o Vírus, não tomando nenhuma precaução(2). Desta forma, pensem que a estatística atual de “doentes infetados” é relativamente aos últimos 5-6 dias, sendo que se hoje formos infetados com o vírus SARS-CoV-2 só vamos apresentar sintomas daqui a um máximo de 14 dias (e nesse período podemos já ter contaminado outras pessoas em volta).  

Em termos clínicos, além dos sintomas “ligeiros” muitas vezes relacionados com uma gripe comum (febre e tosse seca) parece que a doença COVID-19 tem um efeito especialmente grave no trato respiratório inferior (pulmões vá), verificando-se sintomas leves nos primeiros dias (ou semanas) progredindo para muita dificuldade em respirar, e nos casos mais graves, suporte básico de vida (daí tanta preocupação com ventiladores)(3). No nosso sistema imune, a doença COVID-19 manifesta um decréscimo em alguns glóbulos brancos (especificamente os linfócitos)(3), e talvez seja dai que muitos “pseudo-nutricionistas” nos digam para comer certos alimentos, ou tomar certos suplementos, para dar uma “agitada” no sistema imune (shots de imunidade???). No sistema digestivo, os doentes infetados não costumam apresentar sintomas como diarreias ou outro tipo de mal-estar(4)

Sendo assim, o que no pode ajudar a combater esta pandemia? 

1 – Lavar as mãos?

Fulcral! Uma vez que parece que só 5% das pessoas lava as mãos por mais de 20 segundos(5). Além disso, muita gente não completa a secagem das mãos após lavagem(6), relembrando que mãos molhadas (ainda por cima mal lavadas) são uma excelente forma de propagação de doenças. Já agora pessoas asseadas, é cientificamente sabido que muuuuita gente não lava as mãos após urinar(7).

E sobre o desinfetante? Bem, eles são um bom complemento, mas NÃO SUBSTITUIEM A LAVAGEM DAS MÃOS (ouvi dizer que escrever com letra grande ajuda a ter razão). Apesar dos Coronavírus serem mais suscetíveis aos desinfetantes à base de álcool, a remoção dos vírus é mais acentuada quando fazemos a lavagem das mãos(8). Isto porque, quando fazemos a lavagem correta das mãos, o atrito que produzimos ao esfregar em conjunto com o derrame da água, permite a remoção mecânica das “partículas” indesejadas, entre elas os nossos “amigos” Vírus(9;10). Ou seja, desinfetar sim, mas não basta!

Alerta: Muitas pessoas estão a usar “desinfetantes” caseiros sem qualquer tipo de eficácia, à base de “óleos essenciais”, água oxigenada ou vinagre. Este tipo de práticas não tem qualquer evidência na remoção dos vírus e podem dar um falso sentimento de segurança!

2 – Não tocar na face?

 A principal fonte de transmissão de Vírus para o organismo é mesmo esta! Na cara temos muitas “portas de entrada” para vírus, como os olhos e a boca(11).

3 – Evitar o contacto com pessoas doentes?

 Neste caso não é preciso explicar o motivo. Só relembro duas coisas, dado o tempo de incubação da COVID-19 muitas pessoas doentes não vão parecer doentes. Daí a importância da quarentena! Também relembro que a gripe comum, constipações e alergias, não vão parar nesta altura, só porque o “corona está no ar”.

4 – Contactar os serviços de saúde se acharmos que estamos infetados? 

O aconselhamento adequado e o atendimento precoce são fundamentais para evitar piores resultados, como danos nos pulmões ou morte, uma vez que uma tosse e febre leves no início do decurso da COVID-19 podem evoluir rapidamente para uma pneumonia(12). Além da linha de atendimento da Saúde 24, recordo que outros profissionais de saúde e estudantes da área, encontram-se dispostos a tirar duvidas que possam existir. Neste momento, pior que a falta de informação é a desinformação! Uma vez que a desinformação pode ter em nós um sentimento de segurança que não é real. 

Por último, relativamente à Alimentação e Nutrição no combate a esta doença, reforço que todas as conclusões encontradas são relativamente à gripe comum ou constipação. Desta forma NÃO RECORRAM A SUPLEMENTOS SE SUSPEITAM DE ESTAR INFETADO POR COVID-19 (entenderam outra vez a ideia da letra grande). Nem considerem que qualquer atitude em baixo explicada esteja relacionada com a prevenção na transmissão ou tratamento desta doença.

Para a gripe e constipações, podem encontrar muitas vezes a referência à toma de vitamina C, que pelos vistos reduz o tempo de uma constipação se começarmos a tomar regularmente antes de ficarmos doentes(13;14;15). A suplementação de vitamina D também parece estar relacionada com a prevenção de algumas infeções respiratórias(16;17), relembrando que no tempo de inverno (onde as constipações e as gripes ocorrem com maior frequência) passamos mais tempo fechados e com menor exposição solar. Por último, a suplementação de Zinco, aparenta ter algum efeito na redução da gravidade de sintomas em infeções na garganta por vírus(18;19). Outros suplementos como o alho, curcumina, gengibre, equinácea, sabugueiro, própolis ou probióticos podem ser mencionados, mas nenhum com uma evidência relevante que valha a pena falar (avisem a blogueira dos shots de imunidade). Contudo, em termos de estilos de vida, uma dieta “pobre” pode estar mais associadas a um aumento do risco de infeções e, a privação de sono, talvez seja um dos maiores percursores neste campo(20;21). No entanto, quando se fala em prevenção e tratamento de infeções, encontramos mais facilmente referência a suplementos do que a alteração de estilos de vida (os suplementos dão mais lucro!). 

Relembro que nada do que foi dito substitui as recomendações da Direção Geral de Saúde! E para finalizar, lembre-se que há pessoas que escolhem ser ignorantes (não nego) mas há muita gente que foi escolhida para ser ignorante. Durante anos olhamos para o lado quanto à falta de literacia em saúde e agora queremos que as pessoas saibam o que é um Vírus, a importância de uma quarentena, não caiam em comportamentos de manada (como comprar tudo o que vêm no supermercado) ou até mesmo que não considerem que tudo não passa de uma teoria da conspiração! Se os analfabetos de antigamente eram aqueles que não sabiam ler nem escrever, os atuais são aqueles que não têm capacidades cognitivas para entender aquilo que leem ou escrevem. Por isso, além do “fiquem em casa”, também tenham paciência e compreensão com as atitudes dos outros. Não basta criticar ou dizer que as pessoas estão proibidas de fazer algo. É necessário explicar (na sua linguagem) o porque!  

(1)Corman VM, et al. Hosts and Sources of Endemic Human CoronavirusesAdv Virus Res. (2018)

(2)Peeri NC, et al. The SARS, MERS and novel coronavirus (COVID-19) epidemics, the newest and biggest global health threats: what lessons have we learned?Int J Epidemiol. (2020)

(3) Xu Z, et al. Pathological findings of COVID-19 associated with acute respiratory distress syndromeLancet Respir Med. (2020)

(4) Huang C, et al. Clinical features of patients infected with 2019 novel coronavirus in Wuhan, ChinaLancet. (2020)

(5) Borchgrevink CP, Cha J, Kim S. Hand washing practices in a college town environmentJ Environ Health. (2013)

(6) Merry AF, et al. Touch contamination levels during anaesthetic procedures and their relationship to hand hygiene procedures: a clinical auditBr J Anaesth. (2001)

(7) Jeong JS, et al. A nationwide survey on the hand washing behavior and awarenessJ Prev Med Public Health. (2007)

(8) Tamimi AH, et al. Impact of an alcohol-based hand sanitizer intervention on the spread of viruses in homesFood Environ Virol. (2014)

(9) Grayson ML, et al. Efficacy of soap and water and alcohol-based hand-rub preparations against live H1N1 influenza virus on the hands of human volunteersClin Infect Dis. (2009)

(10) Liu P, et al. Effectiveness of liquid soap and hand sanitizer against Norwalk virus on contaminated handsAppl Environ Microbiol. (2010)

(11) Otter JA, et al. Transmission of SARS and MERS coronaviruses and influenza virus in healthcare settings: the possible role of dry surface contaminationJ Hosp Infect. (2016)

(12) Zu ZY, et al. Coronavirus Disease 2019 (COVID-19): A Perspective from ChinaRadiology. (2020)

(13) Ran L, et al. Extra Dose of Vitamin C Based on a Daily Supplementation Shortens the Common Cold: A Meta-Analysis of 9 Randomized Controlled TrialsBiomed Res Int. (2018)

(14) Hemilä H, Chalker E. Vitamin C for preventing and treating the common coldCochrane Database Syst Rev. (2013)

(15) Carr AC, Maggini S. Vitamin C and Immune FunctionNutrients. (2017)

(16) Martineau AR, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: individual participant data meta-analysisHealth Technol Assess. (2019)

(17) Martineau AR, et al. Vitamin D supplementation to prevent acute respiratory infections: individual participant data meta-analysisHealth Technol Assess. (2019)

(18) Hemilä H, et al. Zinc acetate lozenges for treating the common cold: an individual patient data meta-analysisBr J Clin Pharmacol. (2016)

(19) Hemilä H, Chalker E. The effectiveness of high dose zinc acetate lozenges on various common cold symptoms: a meta-analysisBMC Fam Pract. (2015)

(20) Besedovsky L, Lange T, Haack M. The Sleep-Immune Crosstalk in Health and DiseasePhysiol Rev. (2019)

(21) Besedovsky L, Lange T, Haack M. The Sleep-Immune Crosstalk in Health and DiseasePhysiol Rev. (2019)

Sérgio Pita Antão

(C.P. 3933N)

spantao3933@onutricionistas.pt