Entrevista a Fernando Correia: “O futebol não entendeu o espírito do “25 de Abril”.

Fernando Correia

84 anos

Fernando Correia. Jornalista, comentador de rádio e televisão, professor, nasceu em 1935 .
Entrou para a Emissora Nacional em 1958. Trabalhou depois na RDP, Comercial e TSF. Foi diretor do Diário Desportivo, redator e colaborador dos jornais Record,  entre outros.
Colaborou com a Rádio Amália, comentador residente da TVI.
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AD:Um jornalista com mais de 60 anos de carreira. Qual o balanço que faz?

FC: A minha carreira valeu a pena. Vale, ainda, a pena. Em primeiro lugar faço aquilo que gosto (escrever e falar) depois de ver frustrada a minha paixão pela medicina. Não foi possível seguir a carreira médica com que sonhava na minha adolescência, mas consegui realizar – me no jornalismo. Estou feliz. É um balanço altamente positivo, ainda mais porque foi desenvolvido, na sua primeira fase, num período complicado da vida em Portugal, tanto sob o ponto de vista social, como no político e económico. E, depois, porque vivi, enquanto homem e jornalista o “25 de Abril”, algo que marcou, também, profundamente a minha carreira por ter provocado nela alterações significativas. Desde logo, a minha saída da Emissora Nacional para o Rádio Clube Português, a seguir Rádio Comercial e, depois, TSF.

AD: Começou com relatos no antigo estádio de Alvalade numa máquina de gravar. Foi aí que começou a fazer futebol?

FC: O futebol foi um acidente na minha vida jornalística. Quando entrei para a EN foi para ser jornalista e locutor (como se dizia na altura). Só que por questões que tiveram a ver com a minha dignidade profissional optei, meia dúzia de anos depois de ter iniciado a minha carreira, pela reportagem desportiva. É que aí não havia censura!

AD: Considero que no futebol não existe democracia. Hoje em dia, há a ideia de que se uma pessoa não é do meu clube, é meu inimigo e não há poder de encaixe para tentar perceber a opinião do outro. É da mesma opinião?

FC: De facto sempre achei que a democracia não chegou ao futebol. Ou seja: o futebol não entendeu o espírito do “25 de Abril”. Ficou onde estava. Porquê? Porque está nas mãos de grupos económicos, de empresários, de “estrelas” que são pagas a peso de ouro, de organizações bancárias ou para – bancárias e, o que é pior, em muitos casos de gente sem escrúpulos. Penso que este período que estamos a atravessar (corona vírus) vai abrir os olhos a muita gente e vai dar ao futebol profissional a verdadeira dimensão que ele deve ter no nosso País e no Mundo, também. Chegou a hora da verdade. Não é possível, nunca mais, viver na mentira, sempre atolados em dívidas.

AD: O lado menos ‘bonito’ do futebol podemos considerar que são as ‘guerras’ entre os comentadores dos programas de debate?

FC: São “guerras” encomendadas e patéticas que não conduzem a parte alguma. São “guerras” que fazem audiências e é disso que as televisões vivem. Mais audiência igual a mais publicidade e a melhores receitas. De construtivo ou de útil para quem vê não têm nada.

AD: É o sócio 211 do Sporting. Muitas vezes refere que tem a obrigação de fazer alguma coisa pela paz do clube. O que considera que é necessário mudar no seio leonino?

FC: É verdade. Acabo de completar 75 anos de associado. Sou o sócio nº 211 e espero, ainda, descer mais alguns números. Foi uma prenda do meu pai.Quanto ao estado do Clube eu penso que é bastante bom no que diz respeito às modalidades amadoras, às modalidades de pavilhão, ao atletismo, natação e futebol de formação. O problema está no futebol profissional, logo na SAD. Repito: o futebol não pode continuar a viver acima das suas possibilidades. A “Sporting Clube de Portugal Futebol SAD” devia perceber, de uma vez por todas, que lhe ficaria muito bem dar o exemplo e organizar as suas equipas com base na sua capacidade financeira. Pode e deve ser com base na formação. Ninguém levará a mal. Pode ser com recrutamento no mercado português. Que seja. Agora, a pagar fortunas a jogadores estrangeiros de duvidosa qualidade e a empresários, o Sporting não chegará a parte nenhuma. E as outras SADs também não, como é evidente.

AD: Ter sido porta-voz do Bruno de Carvalho nas duas últimas semanas do mandato trouxe-lhe problemas ou foi alvo de insultos?

FC: Fui contratado pela SAD para substituir o Presidente da SAD e Presidente do Clube nas suas intervenções públicas. Não foi possível. Mas fiquei de consciência tranquila. Fiz o que outros sportinguistas (que me criticaram) não foram capazes de fazer.

AD: Acredita que Bruno de Carvalho é o presidente que o Sporting precisa?

FC: Acredito que o Sporting precisa de um alargado consenso quanto à escolha da futura direcção. Assim, não conseguirá tranquilidade, nem saneamento financeiro, nem democracia interna.

AD: Sportinguista e diretor do jornal Sporting durante dezoito anos. Como classifica o ataque a Alcochete?

FC: Foi um bom período profissional que vivi no SCP como director do Jornal. E atravessei várias direcções, com vários presidentes. O ataque aos jogadores profissionais, na Academia, foi uma patetice, um atentado moral, um movimento contestatário inadequado, eu diria mais: algo sem qualificação e que me deixou muito triste. Aquela gente, que foi a Alcochete, ou foi por engano (criancice) ou, então, foi para criar ainda mais confusão, com a finalidade de prejudicar o Sporting. Pergunto: seriam, de facto, sportinguistas?

AD: Depois do ataque foram vários os jogadores que pretenderam rescindir com o Sporting. Considera que os jogadores quiseram sair pelo ataque ou eram jogadores que já tinham mostrado interesse em abandonar Alvalade?

FC: As duas coisas, como agora se vê. Uns sentiram – se feridos na sua dignidade e outros quiseram servir – se da situação para abandonarem o Sporting a custo zero. Estes últimos, no fundo, procederam de acordo com aquilo que o futebol profissional é, ou seja, um campo de proliferação de empresários, representantes, conselheiros, e alguns familiares gananciosos.

AD: Convive diariamente com a doença de Alzheimer, visto que a sua mulher sofre desta patologia. Certamente, presencia todos os dias pessoas deixadas ao abandono que perante todo o sofrimento, ainda têm de lidar com o esquecimento da família. O doente esquece-se de quem é, e a família esquece-se dele.  Na sociedade em que vivemos ainda há muitos os que abandonam esta doença?

FC: Infelizmente cresce o número de idosos doentes, que são abandonados em lares e em hospitais. A velhice é um estorvo e a doença também para determinados familiares sem escrúpulos. A doença de “ALZHEIMER” não é propriamente uma patologia fácil, com a qual se conviva de ânimo leve. Pelo contrário. Exige muito amor, muito sentido de fraternidade, muita compreensão, uma grande sensibilidade e cuidados especiais. Quando o doente chega à fase de internamento, normalmente já está numa condição tal que não permite a recuperação cognitiva, exigindo ainda mais cuidado no tratamento, exactamente porque perdeu a sua autonomia. É fundamental perceber isso e agir em conformidade. Depois também há questão dos “lares”, muito deles sem certificação, o que piora o problema. No meu caso, ou no caso da mãe das minhas últimas três filhas, só posso dizer bem, porque ela está internada na Casa de Saúde das irmãs Hospitaleiras que está vocacionada para o tratamento de doenças mentais

Livro da Autoria de Fernando Correia sobre a sua mulher, Vera.

AD: Coloca todos os livros que escreve na mesa de cabeceira da Vera, a sua mulher. Mantém a esperança de que ela um dia os possa ler?

FC: É verdade. Ela tem à cabeceira da cama uma pilha de 40 livros escritos por mim, porque foi assim que aconteceu em relação ao primeiro. Continua a ser, mesmo sabendo eu que, infelizmente, ela não lerá mais nenhum.

AD: Estamos a enfrentar uma pandemia Covid-19. Considera que o mundo do futebol não voltará a ser o que era?

FC: Penso que esta pandemia vai transformar, por completo, a vida das pessoas. Nada será como dantes, pela consciência e pelo medo. O futebol tem aqui uma óptima oportunidade para se requalificar e para se reencontrar na sua real dimensão.

AD: Na sua opinião qual seria o desfecho justo para a Liga Nos?

FC: Não pode haver um Campeão Nacional em Março ou em Abril. Há jogos para disputar. Há posições para definir. O calendário deve ser cumprido. Creio que assim será feito e que os jogos, talvez sem público ou com outra distribuição de assistentes, se realizarão a partir do fim de Maio e princípio de Junho. Aliás, tanto a FIFA como a UEFA querem que seja assim. A próxima época começará mais tarde e certamente nessa altura já com normalidade controlada no que diz respeito a espectadores.