Entrevista a António Pedro Mendes :”É perfeitamente possível ter uma alimentação saudável a um custo muito baixo”

AD: Enquanto nutricionista, iniciaste o teu percurso no FC Paços de Ferreira onde estiveste 3 anos. No teu primeiro dia no Paços qual foi a sensação?

AM: Foi uma sensação indescritível. Ligaram-me num dia, quase à meia-noite, com o convite para integrar o Departamento Médico do clube. Comecei a trabalhar logo no dia seguinte, e nem conseguir dormir nessa noite. Foi o realizar de um desejo de sempre: trabalhar num clube de futebol da Primeira Liga.

AD: Quando surgiu a oportunidade de seres nutricionista no FC Porto aceitaste de imediato ou foi uma decisão ponderada devido a estares já há três anos no FC Paços de Ferreira?

AM: Apesar de me ter custado abandonar um projeto com pessoas fantásticas que tinham acreditado em mim no meu início de carreira, a resposta ao convite por parte do FC Porto foi imediata. Apenas pedi algumas horas, porque queria ser eu a informar o clube e todos os colegas que tinha recebido e aceitado o novo desafio. E a forma como todos reagiram à minha decisão foi incrível. Senti que ficaram realmente felizes e orgulhosos.

AD: Atualmente és coordenador da Unidade de Nutrição no Desporto da Clínica do Dragão- FIFA Medical Centre of Excellence onde dás consultas. Certamente já aconselhaste atletas campeões do mundo nas várias modalidades. Podes citar alguns nomes?

AM: Sim, na Clínica do Dragão acabo por ter a oportunidade de trabalhar com atletas de elite de diferentes modalidades, e alguns deles com títulos internacionais. Atualmente, tenho atletas deste nível no jiu-jitsu, karaté, kickboxing, surf, ténis, ou mesmo no CrossFit.

AD: Recentemente foste formador no Curso de Nutrição Avançada da Bwizer. Como surgiu o convite para fazer parte do elenco de formadores?

AM: Foi com enorme honra que recebi o convite. Poder integrar uma equipa de formadores de grande mérito, humano e profissional, é algo que me traz orgulho, mas também imensa responsabilidade.

AD: Atualmente tens mais atletas que te procuram uma única vez para aconselhamento ou atletas que te procuram de forma frequente e para um acompanhamento na carreira?

AM: É muito mais frequente o acompanhamento a longo prazo. Até porque um acompanhamento nutricional de qualidade não pode ser feito com uma única consulta. É um processo demorado, que evolui e entra em maiores detalhes com o passar do tempo, tendo que ser ajustado às diferentes fases de uma época desportiva. Também há quem me procure de forma isolada, com o objetivo de resolver um problema a curto prazo. Mas habitualmente não são atletas.

AD: Para além do exercício físico e do treino diário, a nutrição é uma das ferramentas essenciais para um atleta de qualquer modalidade. Qual é a alimentação que receitas, por exemplo, para um jogador de futebol?

AM: A qualidade nutricional dos alimentos recomendados a um futebolista é exatamente a mesma que a que recomendo a atletas de outras modalidades, ou mesmo à população não atlética. As quantidades desses mesmos alimentos, a sua distribuição e organização diária (ou semanal), e o ajuste consoante a fase da época ou mesmo possíveis objetivos de composição corporal, é que vão ditar as particularidades de cada intervenção. Para além disso, é necessário ter ainda em consideração os hábitos alimentares prévios, tentando ir ao encontro dos mesmos, sempre que possível. E depois surge sempre a questão dos suplementos nutricionais, que poderão ser equacionados caso se verifique alguma vantagem na utilização dos mesmos.

AD: Na época passada (2018/2019) a equipa de Nutrição Dragon Force conquistou números recorde.  Falamos de que 72% dos alunos diminuiram o indice de massa corporal, 55 % conseguiram-no logo após a primeira consulta de Nutrição. Sentes que na tua profissão estás a mudar o rumo de cada uma das crianças que pretende fazer carreira num determinado desporto?

AM: Sem dúvida. E não diria apenas as crianças que pretendem fazer carreira no desporto, mas sim em todas as crianças. O projeto Dragon Force é absolutamente brilhante, e os números não deixam margem para dúvidas. Uma entrevista à sua coordenadora, a nutricionista Maria Roriz, seria extremamente interessante.

AD: Consideras que as pessoas se preocupam cada vez mais com a nutrição e em seguir uma alimentação saudável ou ainda há algumas mentalidades que é necessário mudar?

AM: Apesar de grandes avanços, ainda há uma percentagem grande da população que precisa de ser mais sensibilizada para a mudança. O facto das mudanças alimentares não serem palpáveis a curto prazo, pelo menos no que à saúde diz respeito, leva a que quem tem menos conhecimento na área não compreenda quão impactantes poderão ser a longo prazo. É um desafio que nós, nutricionistas, temos que saber abordar da melhor forma.

AD: Há um estereótipo de que a nutrição e a alimentação saudável é acessível a quem tem mais posses monetárias para conseguir seguir determinadas dietas. Partilhas da ideia de que algumas pessoas não se preocupam com a nutrição porque consideram que são um ‘luxo’?

AM: Acredito que essa ideia poderá ser usada como um pretexto para a resistência à mudança de hábitos. A verdade é que alguns hortofrutícolas poderão ter sofrido um aumento de preço significativo nos últimos anos, e que a maior parte da fast food tem preços (e sabores) atraentes, mas algumas instituições nacionais já fizeram um excelente trabalho na demonstração do inverso. É perfeitamente possível ter uma alimentação saudável a um custo muito baixo. É evidente que provavelmente não poderão apostar em frutos vermelhos com frequência, mas há frutas com um elevado poder antioxidante a preço acessível. É tudo uma questão de bom senso e de se fazerem os ajustes necessários.

AD: És um nutricionista reconhecido, bastante dinâmico e ativo no ramo. No entanto, há sempre algo que nos falta atingir. Qual é o teu maior objetivo que pretendes alcançar?

AM: Tenho de admitir que atualmente, a nível profissional, me sinto realizado. Gosto muito do que faço, e trabalho imenso para estar sempre atualizado e com conhecimento sólido nas diferentes vertentes. Creio que o que precisava neste momento era de mais tempo para dedicar a outras áreas pelas quais nutro um particular carinho. Costumo dizer que o meu problema é gostar de tantas e tão distintas áreas, e sentir frustração por não conseguir aprofundar muito nenhuma delas, para além da nutrição.