Entrevista a João Brandão: “Existem vários caminhos para o sucesso mas todos passam por muito rigor no trabalho”

AD: Desde quando surgiu o teu gosto pela área de Desporto?

JB: O gosto pelo desporto e pelo futebol está-me no sangue. Desde muito novo que assistia a treinos e jogos das diferentes modalidades, mais em particular de futebol por influência familiar, já que a minha família sempre foi muito ligada ao desporto. Cresci dentro dos balneários e nas bancadas dos campos de treinos, sempre com uma paixão e curiosidade imensa pelo jogo.

AD: Começaste a carreira no FC Porto. Mais tarde passaste pelo Arouca, regressaste ao FC Porto B. E atualmente és treinador-adjunto no Shakhtar Donetsk. Como está a ser esta experiência na Ucrânia?

JB: O gosto pela liderança e pelo treino sempre estiveram presentes ao longo da minha formação pessoal e académica. Joguei futebol mas mal e, por isso, sempre tive um olhar sobre a função do treinador. Fui capitão nos escalões de formação porque gostava de liderar e ter essa responsabilidade. Tinha 20 anos quando comecei a trabalhar no futebol, na altura de forma gratuita, numa escola de futebol. Depois surgiu a possibilidade de fazer um estágio para um trabalho de curso com o José Mourinho, logo nos primeiros meses dele no FC Porto, tendo sido aí que percebi que a minha felicidade e objetivos de vida passavam pelo futebol e um dia poder estar ao mais alto nível. Felizmente, hoje estou no Shakhtar e isso é uma enorme responsabilidade, mas também a recompensa por tudo o que percorri e investi ao longo destes anos. O Shakhtar é uma equipa com uma história muito bonita, representa uma região que vive momentos difíceis por causa do conflito e nós sentimos a obrigação de fazer os adeptos reverem-se na sua equipa. Fruto desse conflito, estamos longe de Donetsk. Vivemos e treinamos em Kiev mas jogamos a 400 km, em Karkiv. No final da época são centenas de viagens de avião, embora o clube seja muito organizado e haja todas as condições para lutar por títulos.

AD: Como é ser treinador-adjunto de Luís Castro?


JB: É fantástico. Trabalhei com o Mister pela primeira vez vai fazer 15 anos. Foi sempre um homem e um líder com valores humanos e princípios de vida de excelência. Profissionalmente, acho que o seu trajeto é o seu melhor cartão de visita. Alguém que começou nos distritais e hoje está ao mais alto nível do futebol europeu é demonstrativo da sua competência, entrega e paixão pelo futebol. Já trabalhei com o Mister em diferentes funções, diferentes clubes e também em diferentes países e em todos contextos prevaleceu os seus princípios, o seu rigor e competência. O Mister consegue ser um excelente exemplo de que para liderar ou se ser respeitado não é necessário ser agressivo e/ou indelicado. Mostra que um bom caráter, coerência e competência são pilares de uma boa liderança.

AD: Conseguiste adaptar-te bem ao método de jogar e treinar na Ucrânia?


JB: Sim, foi muito simples. Beneficiamos claramente do facto de o clube ter um projeto muito bem estruturado desde há muitos anos e também porque os nossos antecessores eram Portugueses e com ideias “macro” semelhantes às que defendemos. Isso não acontece por acaso pois o Presidente tem uma visão muito clara do que pretende para o clube e a contratação do Mister Luís Castro, o perfil de treinador e o perfil de jogador juntamente coma aposta em jogadores da formação, são os alicerces fundamentais desse projeto. Algo pouco usual em Portugal, infelizmente.

AD: Qual foi a tua maior dificuldade nesta mudança?

JB: A ausência da família. Tenho uma família maravilhosa, pela qual sou apaixonado, mas para não prejudicar o desenvolvimento escolar dos meus filhos, eles estão em Portugal, onde a minha esposa faz de Pai e Mãe de forma exemplar, suportada pelos meus pais e pelos meus sogros. Outra dificuldade é a língua, embora já consiga entender e falar algumas palavras em Russo ou Ucraniano, é uma língua muito difícil, por ter um alfabeto diferente do nosso. Se a tal acrescermos o facto de alguns jogadores não falarem Inglês compreende-se a dificuldade na comunicação. Quem nos ajuda muito nessa matéria é o nosso fantástico tradutor, o Max.

AD: Passaste por vários escalões do FC Porto ao longo deste quinze anos e foi o clube onde mostraste o teu trabalho mais tempo. Consideras o FC Porto como uma ‘segunda casa’?

JB: Foram anos de aprendizagem e experiências muito importantes para o meu crescimento pessoal e profissional, tal como foi muito gratificante trabalhar na Académica e conquistar a Taça de Portugal. Ver o Jamor repleto de “capas negras”, chegar a Coimbra com a taça e ver aquela multidão foi inesquecível. No Arouca vivi momentos fantásticos onde o grupo de trabalho era de uma riqueza humana incrível, grande grupo, grandes homens não foi por acaso que depois foram à Liga Europa. No Padroense conseguimos conquistas inéditas até hoje, só de imaginar uma fase final de sub-17 só com quatro equipas, FC Porto, Benfica, Sporting e os sub-16 do Padorense foi fantástico. Ainda à poucos dias falava com o André Silva e com o Francisco Ramos e eles diziam que foi o melhor ano deles na sua formação, por tudo o que vivemos e conquistamos. Agora a minha casa é o Shakhtar mas se estou aqui devo muito a todos com quem trabalhei nestes clubes onde aprendi com gente muito competente e onde vivi momentos positivos e negativos que me fizeram refletir.

AD: Consideras que o COVID-19 trouxe muitas mudanças principalmente para o futebol?

JB: Nunca vivemos nada parecido. Estamos a viver um momento que ficará para a história da humanidade e certamente vai haver um antes e um depois do Covid-19, um pouco à semelhança do que se passou no 11 de Setembro. Passados estes anos são poucos os que se lembram o que era o mundo e as medidas de segurança antes de trágico momento. Mas a verdade é que o Ser humano tem uma capacidade muito boa de se adaptar e espero, mais uma vez, que essa capacidade, juntamente com o sucesso na investigação e descoberta da vacina, possam levar-nos rapidamente para uma nova normalidade. Enquanto isso não é possível vivemos de forma estranha e desconfortável, mas necessária para o bem de todos. O futebol já se está a adaptar e a forma como os jogadores treinaram em casa de forma individual, foi o primeiro passo dessa adaptação. Agora, passa por treinar em pequenos grupos, respeitando o distanciamento social e acredito que em breve novas medidas serão tomadas de forma a que se possa jogar o quanto antes. Talvez numa primeira fase sem adeptos mas, posteriormente, já com as bancadas repletas de gente apaixonada por este jogo que é tão fascinante.

AD: Certamente ambicionas ser treinador principal de um grande clube. Agora que já estás fora de Portugal, gostavas mais de ser treinador no estrangeiro ou em clubes portugueses?


JB: Já fui treinador principal durante vários anos no FC Porto e no Padroense e hoje o que sinto é que essas experiências são uma vantagem e me permitem ajudar de forma mais eficaz o Mister. Para além de uma ligação suportada em vários anos de trabalho e conhecimento mútuo, hoje muitas das vezes percebo o Mister só pelo seu olhar porque, embora noutra dimensão, já fui treinador principal. Sei que esta visão é pouco usual, o mais vulgar é o adjunto que quer ser principal, mas hoje sou muito feliz nas minhas funções enquanto adjunto do Mister Luís Castro e por pertencer a uma equipa técnica muito competente onde tenho colegas de profissão e de missão, mas também amigos.

AD: Qual o melhor conselho que podes dar a um jovem treinador em ínicio de carreira?


JB: Devem investir muito nos vossos objetivos. Existem vários caminhos para o sucesso mas todos passam por muito rigor no trabalho. A sociedade de hoje vive sem tempo e sem paciência, onde tudo parece descartável e a novidade parece uma garantia de qualidade. Não, não é assim! Para mim o tempo e a vida têm uma relação de grande cumplicidade e mesmo quando parece que não temos tempo ou que as oportunidades se esgotaram, com tempo, paciência, respeito pelos outros e muito trabalho, lá surge um novo caminho. Confesso que se me perguntassem, há uns anos atrás quando estava envolvido num grave problema de saúde familiar, se algum dia iria estar num jogo da Champions diria que não. Mas a verdade é que agora olho para trás e penso que tudo faz sentido, estejamos nós preparados e equilibrados para as oportunidades que passam por nós. Depois é necessário ter a felicidade de encontrar pelo caminho pessoas de valor acrescido e com bons princípios, como felizmente eu tive a sorte de conhecer. O sonho comanda a vida mas só o trabalho nos ajuda a tornar realidade aquilo que um dia desejamos viver.