EXCLUSIVO ARENA DESPORTIVA – ENTREVISTA A JOÃO MALHEIRO

Hoje na ARENA DESPORTIVA, recebemos uma figura incontornável do Futebol Português: JOÃO MALHEIRO. Nascido em 1960, em Viana do Castelo, JOÃO MALHEIRO trabalhou como jornalista no jornal O JogoRádio Clube do PortoRádio ComercialRTPRDP/Antena 1 e TSF. Mais Tarde colaborou com a SIC, 24 Horas, CMTV e JORNAL BENFICA. Foi duas vezes Prémio GandulaPrémio Fernando Vaz e Prémio Cândido de Oliveira, da Associação Nacional de Treinadores de Futebol. Sócio e accionista do Sport Lisboa e Benfica, foi director de comunicação do clube, de Novembro de 2000 a Dezembro de 2003. Uma entrevista que foi conduzida pela JOANA MOREIRA e pelo MADUREIRA SANTOS.

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ARENA DESPORTIVA – Começando pelo jornalismo, trabalhou em alguns dos melhores órgãos de comunicação do país. Como surgiu o jornalismo na sua vida?

JOÃO MALHEIRO – Quase por acidente, até porque estava a concluir o curso de História na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Deveu-se à minha grande paixão pelo futebol. Fui convidado pelo jornal O Jogo, primeiro diário desportivo português. A partir daí, seguiram-se experiências profissionais no jornalismo radiofónico e audiovisual. Passei, entre outros órgãos, pela Rádio Comercial, Antena 1, RTP e TSF. Mais tarde, já depois do Benfica, SIC, 24 Horas e CMTV, para além da BTV e do jornal do meu clube.

ARENA DESPORTIVA – Como olha para o jornalismo praticado atualmente em Portugal?

JOÃO MALHEIRO – Sou crítico relativamente a uma tendência exacerbada de sensacionalismo e negativismo. Ainda assim, houve uma acentuada evolução, sobretudo em termos tecnológicos, digna de registo. Têm emergido, igualmente, jovens profissionais de grande talento, mas a massificação também revela muita impreparação, demasiado seguidismo e diminuta criatividade ou ousadia.

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ARENA DESPORTIVA – É conhecido da maior parte dos portugueses, por ser um grande adepto do SL BENFICA. Consegue-nos descrever o amor que sente pelo clube em palavras?

JOÃO MALHEIRO – É, consabidamente, a grande paixão da minha vida. O Benfica tem uma presença constante no meu quotidiano. Por mais anos que viva, jamais pagarei a dívida emocional que tenho para com o clube da minha afeição. Costumo dizer que o Benfica foi a mais bela ideia do século XX lusitano e a maior fábrica de sonhos do século XXI.

ARENA DESPORTIVA – Foi diretor de comunicação do SL BENFICA, entre novembro de 2000 e dezembro de 2003. Que recordações tem desse tempo?

JOÃO MALHEIRO – Tratou-se do período mais exaltante desde que me conheço. Com incontido orgulho, servi o clube num período tão difícil quanto decisivo. Recordo que recebemos a trágica herança de Vale e Azevedo (que me orgulho de ter combatido) e lançamos as bases para uma instituição hodierna e consentânea com o seu rico e poderoso historial.

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ARENA DESPORTIVA – Uma das suas principais referências no futebol é EUSÉBIO, tendo escrito vários livros sobre ele. Foi um grande amigo e ídolo?

JOÃO MALHEIRO – Fomos muito íntimos durante tantos anos e até à sua morte. Dolorosamente, dei a notícia, a Portugal e ao Mundo, do seu desaparecimento físico. Fui o biógrafo oficial daquele que é o meu grande ídolo de infância e um dos melhores jogadores planetários de todos os tempos. Eusébio é mesmo padrinho de um dos meus casamentos. Foi uma relação bonita, estimulante, de cumplicidades mútuas. Estimo ter mais de mil refeições com ele, sinal indicativo da nossa arreigada proximidade.

ARENA DESPORTIVA – Falando da atualidade, como olha para o estado atual do SL BENFICA? Está no bom caminho? Continua a ser LUÍS FILIPE VIEIRA a pessoa certa para seguir ao leme?

JOÃO MALHEIRO – Com a incontida satisfação de ver o clube na posse de todos os sinais da modernidade no que respeita ao seu património físico. Feliz, também, pela sucessão de triunfos, confirmando a hegemonia competitiva no contexto nacional. Em todo o caso, descontente por uma cultura demasiado empresarial e por ter nos seus quadros algumas pessoas que ofendem os valores mais sagrados da nossa cultura centenária. Luís Filipe Vieira é credor de muitos elogios, mas não está isento de críticas. Quanto ao futuro imediato, pelo menos até ao momento, não vislumbro uma alternativa credível para a presidência. Ainda assim, ideias diferentes, desde que fundamentadas, não dividem o Glorioso, antes reforçam a sua vitalidade e capacidade de resposta aos mais diferentes desafios.

ARENA DESPORTIVA – O que pensa sobre os casos que têm abalado o universo SL BENFICA, como por exemplo E-Toupeira, Lex, Mala Ciao, entre outros?

JOÃO MALHEIRO – Desde logo, como denunciei publicamente no começo, tratou-se de uma ofensiva sem precedentes visando o Sport Lisboa e Benfica. Recordo que, em maio de 2017, responsáveis da comunicação do FC Porto e do Sporting se reuniram, em Lisboa, numa aliança esclarecedora, para definirem a estratégia de desmoralização do Benfica, na base de material ilicitamente subtraído. Pergunto: o que seria se a correspondência eletrónica do FC Porto ou do Sporting caísse na praça pública? Apesar de tudo, com raras exceções, pouco há de incriminatório para o Benfica. E o que existe, naturalmente, condeno. Como condeno também a tardia e mal estruturada resposta institucional do clube à gigantesca provocação.

ARENA DESPORTIVA – Falando da equipa de futebol, o que tem achado do futebol do SL BENFICA esta época e dos resultados? Continua a ser Bruno Lage o homem certo para levar o SL BENFICA ao tão desejado título europeu que LFV prometeu?

JOÃO MALHEIRO – Tenho apoiado, sem quaisquer reservas, Bruno Lage e todos os jogadores. Não concebo a militância benfiquista de outra forma, embora reconheça que a equipa, antes desta interrupção forçada, estava a jogar de forma pouco convincente. Quanto à promessa de Luís Filipe Vieira trata-se, infelizmente, de uma falácia. Digo-o com toda a mágoa, mas é um imperativo de honestidade. Com a atual mentalidade mercantilista, o Benfica, para angústia do seu imenso universo, não conseguirá o título europeu de clubes.

João Malheiro abandona programa em direto com Pedro Guerra ...

ARENA DESPORTIVA – Tendo já sido diretor de comunicação do clube, o que acha da política de comunicação atualmente do clube?

JOÃO MALHEIRO – Desastrosa. É talvez o setor mais crítico. A ideia que passa é que a comunicação do Benfica é um anedótico Pedro Guerra e algumas réplicas igualmente infelizes. Por amor ao clube, tenho sido contundente. Estive calado muitos anos, sobre essa matéria, até porque fui, cronologicamente, o primeiro diretor de comunicação. E, antecipando algumas observações ridículas, aproveito, mais uma vez, para declarar que jamais aceitaria um lugar remunerado no meu clube. É uma declaração de honra. Tive o meu tempo, que não é o de hoje nem o do futuro. Mas, como sócio e acionista, também como adepto incondicional, tenho o direito e até o dever de denunciar quão fraca, desajustada e incompetente tem sido, nos últimos três anos, a comunicação do Benfica.

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ARENA DESPORTIVA – O que pensa das pessoas que estão nas televisões a defender o SL BENFICA, como por exemplo Pedro Guerra ou André Ventura? São pessoas que demonstram bem o que é ser benfiquista?

JOÃO MALHEIRO – O Benfica tem ganho os campeonatos no terreno, mas empata ou perde quase sempre nas prestações televisivas. Pessoas há, em pecado, de águia ao peito, que não são guardiões da história centenária da grande instituição de Eusébio, Coluna ou Chalana, antes patéticos profissionais do alpinismo e meros servidores do benfiquismo de conveniência.

ARENA DESPORTIVA – Falando do FC Porto, como olha para o estado de um dos grandes rivais do SL BENFICA? 

JOÃO MALHEIRO – O FC Porto vive em permanente angústia e numa agressividade bruta. Percebe que perdeu o controlo subterrâneo que teve durante muitos anos e não se adapta com sensatez aos novos tempos. Não fossem alguns autogolos do Benfica e a situação seria ainda mais dramática. Acresce que é um clube falido, já intervencionado pela UEFA, muito próximo da catástrofe.

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ARENA DESPORTIVA – E do Sporting, o que pensa? Está Frederico Varandas a fazer um bom trabalho no pós Bruno de Carvalho. Já agora acha que Bruno de Carvalho foi o autor moral do ataque a Alcochete?

JOÃO MALHEIRO – O edifício judicial acaba de provar que não, ainda que pense que Bruno de Carvalho perdeu a noção da realidade nos derradeiros meses do seu consulado e arrastou o clube para o abismo. O nosso histórico arquirrival está quase mergulhado na ingovernabilidade. Com Varandas ou qualquer outro líder. Nem nos próximos dez anos conseguirá vencer um campeonato, afirmo-o de forma judiciosa.

ARENA DESPORTIVA – Como olha para o futebol português, e o que acha que tem de ser feito para as equipas portuguesas terem melhores resultados na Europa?

JOÃO MALHEIRO – Importa alterar o quadro competitivo, aumentar e dividir de forma mais equitativa as receitas das transmissões televisivas, conferir maiores estímulos às diferentes agremiações, melhorar a competência das estruturas responsáveis, estimular uma política de acesso em massa aos recintos, acabar com o clima de suspeição e espetáculos de pirotecnia verbal. São apenas alguns contributos numa matéria quase inesgotável.

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ARENA DESPORTIVA – Qual a sua opinião sobre o caso RUI PINTO?

JOÃO MALHEIRO – Sucintamente, tem de ser responsabilizado pelas ilicitudes que cometeu. Ainda assim, aquilo que de mais substantivo apurou deve constituir objeto de apreciação pelas autoridades competentes.

ARENA DESPORTIVA – O que acha da arbitragem portuguesa?

JOÃO MALHEIRO – Está mais higiénica. Ainda distante da melhor performance possível e desejada, mas progressivamente mais próxima da verdade desportiva. Basta compararmos com o que se passava há quatro, três ou duas décadas.

ARENA DESPORTIVA – Que balanço faz da implementação do VAR?

JOÃO MALHEIRO – Muito positivo. Mesmo sabendo que os números têm um carácter inexorável, arrisco dizer que mais de 90% das decisões do VAR têm sido ajustadas.

ARENA DESPORTIVA – Não sendo possível acabar o campeonato, deve ser atribuído um campeão (se sim, quem), ou não haver campeão?

JOÃO MALHEIRO – Não. A meu ver, caso não seja possível concluir a competição, o título não deve ser entregue. E, para que não haja dúvidas, diria o mesmo se o Benfica liderasse, com um ponto de avanço, a pauta classificativa.

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ARENA DESPORTIVA – Uma mensagem para os adeptos do SL BENFICA..

JOÃO MALHEIRO – O que nos possa dividir é sempre inferior ao que nos deve unir. É um privilégio ser adepto da maior instituição desportiva nacional e uma das poucas com caráter mítico a nível universal. Ser do Benfica, ser do clube do povo, é a única doença que não prejudica a saúde, antes a revitaliza.

MUITO OBRIGADO AO JOÃO MALHEIRO PELA DISPONIBILIDADE!